O mapa · Cartografia
Sistema de informação geográfica: o mapa que virou banco de dados
Mundo · Leitura de 5 minutos

Neste artigo
Um mapa de papel guarda uma informação só: o desenho impresso. Um sistema de informação geográfica guarda o desenho e a tabela que veio atrás do desenho, e a tabela responde pergunta.
A sigla em português é SIG. Em inglês o nome aparece como geographic information system. A ideia cabe numa frase: cada feição desenhada carrega coordenada e atributo, então o mapa deixa de ser figura e vira banco de dados consultável por posição.
A consulta é a diferença inteira. Você pergunta quais escolas ficam a menos de um quilômetro de área sujeita a alagamento, e o sistema cruza duas informações guardadas em arquivos separados e devolve a lista com nome e endereço. O papel nunca fez o cruzamento.
A camada: uma folha por assunto, empilhada na mesma coordenada
A unidade de trabalho do SIG é a camada. Cada camada guarda um assunto só: os rios de uma bacia, os lotes de um bairro, as estradas de um estado, os pontos de coleta de lixo de uma cidade.
Junto com o desenho vem a tabela de atributos. A linha do rio traz nome, código de bacia e vazão medida. O polígono do lote traz área, uso declarado e a inscrição no cadastro municipal. O ponto de coleta traz a data da última visita da equipe.
Empilhar é o gesto central do ofício. Duas camadas só conversam quando estão amarradas ao mesmo sistema de coordenadas, e por essa razão o cadastro de um país inteiro precisa de um referencial único, publicado e obrigatório para quem produz base oficial.
O SIG não desenha a linha. Ele guarda por que a linha passa ali, no campo da tabela que veio junto com o traço.
Vetor contra raster: a borda exata e a grade de células
Duas formas de guardar o mundo dividem o trabalho, e as duas convivem no mesmo projeto.
O vetor guarda ponto, linha e polígono, cada um com as próprias coordenadas. Serve pra coisa de borda definida: o poste, a rua, o limite do município, o talhão da lavoura. Você amplia a tela e a borda continua nítida, porque a máquina redesenha a partir da coordenada, nunca a partir da imagem.
O raster guarda uma grade de células, e cada célula carrega um valor. Serve pra fenômeno contínuo, que não tem borda natural: altitude, temperatura, umidade do solo, luz refletida pela vegetação. As bandas principais do Sentinel-2, do programa europeu Copernicus, entregam célula de 10 metros de lado, segundo a documentação técnica publicada pelo próprio programa.
A escolha entre os dois formatos não é gosto, é pergunta. Contar quantos lotes existem num bairro pede vetor. Medir quanto de mata sobrou numa bacia pede raster. Cruzar as duas coisas pede converter um formato no outro, e a conversão sempre perde alguma coisa no caminho.
De onde vem o dado: satélite, campo, cadastro e sensor
Nenhuma camada nasce dentro do computador. Toda camada é levantamento feito por alguém, em algum lugar, numa data que fica registrada.
O satélite entrega a imagem. O programa CBERS, tocado em parceria pelo Brasil e pela China, distribui imagens do território no catálogo público do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e o mesmo instituto abre as séries de monitoramento da floresta amazônica no portal TerraBrasilis.
O campo entrega a coordenada. Receptor de navegação por satélite marca onde a equipe está de pé, e o levantamento topográfico amarra o ponto medido ao referencial oficial do país.
O cadastro entrega o atributo. O Cadastro Ambiental Rural, previsto na lei florestal brasileira e operado pelo Serviço Florestal Brasileiro, guarda o polígono declarado de cada imóvel rural, com reserva legal e área de preservação dentro do mesmo arquivo.
O sensor entrega o tempo. A rede de estações da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico envia nível de rio e chuva medida pro banco público, e a camada muda de valor de hora em hora.
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Quem usa no Brasil: o mapa oficial sai por quatro portas
O IBGE publica a malha territorial: limite de município, setor censitário, base cartográfica contínua. Quem desenha o Brasil sem a malha do instituto está inventando fronteira por conta própria.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais publica o desmatamento medido por imagem, com o levantamento anual consolidado de um lado e o alerta rápido do outro, os dois abertos no portal do programa de monitoramento.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico publica a base hidrográfica: o país inteiro repartido por bacia, com cada trecho de rio codificado pra que a água de cima seja rastreada até a foz.
A prefeitura fecha a escala fina. O cadastro técnico municipal amarra lote, edificação e rede de água, e decide onde o ônibus para e quanto o imóvel paga de imposto. O dado municipal é o mais detalhado e o mais desigual do país, porque cada prefeitura levanta o próprio, no ritmo que o orçamento permite.
O mapa de saúde pública que hoje seria uma camada
Em meados do século 19, um bairro de Londres enfrentava um surto de cólera e ninguém sabia por onde a doença andava. Um médico chamado John Snow marcou numa planta do bairro cada morte registrada e cada bomba de água pública que abastecia as ruas.
As mortes se apertavam em volta de uma bomba só. Duas camadas sobrepostas numa folha, um século antes de existir máquina pra fazer o mesmo, e a fonte é o estudo que ele mesmo publicou sobre o modo de transmissão da cólera.
Hoje o trabalho seria dois arquivos e uma consulta de meio minuto: pontos de óbito, pontos de bomba, distância entre eles. O cruzamento continuaria idêntico. Só a mesa mudou.
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