O mapa · Fronteira
América Anglo-Saxônica e América Latina: onde a linha passa
Mundo · Leitura de 5 minutos

Neste artigo
A linha que separa a América Anglo-Saxônica da América Latina não está desenhada no chão. Ela é um critério, e existe mais de um critério em uso ao mesmo tempo, o que explica por que dois mapas escolares confiáveis colorem o continente de jeitos diferentes.
O primeiro critério é a língua que se fala. O segundo é quem colonizou. O terceiro é físico e não fala de gente nenhuma: ele pergunta apenas onde a terra se estreita e uma América vira outra.
Os três se cruzam num ponto só, na fronteira do norte, e brigam entre si em quase todo o resto do mapa.
A língua é o critério mais usado, e o mais furado
Pelo critério da língua, a América Anglo-Saxônica são os países onde o inglês predomina: Estados Unidos e Canadá. A conta começa a vazar já no segundo nome da lista.
O Canadá tem duas línguas oficiais federais, inglês e francês, pela lei de línguas oficiais do país, e o francês é a língua majoritária no Quebec. O bolsão francófono não é resto histórico solto no mapa: ele se concentra no vale do rio São Lourenço, o corredor por onde a colonização francesa entrou no continente e onde ela ficou.
O colonizador explica melhor, e ainda deixa buraco
O termo América Latina passou a circular no século 19 para nomear a parte colonizada por países de língua derivada do latim: Espanha, Portugal e França. É um critério mais estável que o da língua falada hoje, porque colonização não muda depois de ter acontecido.
Ele também vaza. A Luisiana foi francesa e hoje está no bloco anglófono. O Quebec continua francófono e está no mesmo bloco. O Belize foi colônia britânica e senta no meio da América Central, onde quase todo mapa escolar prefere agrupá-lo com os vizinhos por posição, e não por herança.
O rio que virou marco, e o trecho que é linha reta
A fronteira entre Estados Unidos e México segue um rio em boa parte do traçado. Ele troca de nome ao atravessar: Rio Grande de um lado, Río Bravo del Norte do outro, e o tratado de 1848 entre os dois países fixou o leito como limite do golfo até a altura de El Paso.
O rio responde por quase dois terços da linha. O resto, do deserto até o Pacífico, é uma reta desenhada na prancheta e materializada no chão por quase três centenas de marcos de pedra, mantidos pela comissão binacional de limites e águas que os dois governos sustentam juntos.
Rio de planície não fica parado. Quando o leito migra, o limite entra em disputa técnica, e o caso mais conhecido do Rio Grande só terminou quando os dois lados concordaram em canalizar o trecho urbano em concreto. Por que a linha passa ali virou, naquele pedaço, uma obra de engenharia.
O México, que cabe nos dois lados do mapa
Fisicamente, o México está na América do Norte. Culturalmente, ele é o país mais populoso da América Latina. Os dois enunciados são verdadeiros ao mesmo tempo, e a contradição só aparece para quem acha que as duas divisões são a mesma divisão.
O instituto de geografia e estatística mexicano publica a geografia oficial do país, e os mapas físicos costumam emendar as duas Américas no istmo de Tehuantepec, a cintura de pouco mais de duzentos quilômetros de largura onde o território afina de oceano a oceano.
A newsletter Geografia do Dia está em preparação
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.
O Caribe, onde a língua conta a história inteira
O Caribe é onde a divisão em duas caixas fica sem caixa. O Haiti tem francês e crioulo como línguas oficiais, pelo texto constitucional do país, o que o coloca na América Latina tanto pelo critério da língua quanto pelo do colonizador.
A Jamaica tem o inglês como língua oficial, registrado pelo próprio governo jamaicano, e ainda assim ninguém a chama de anglo-saxônica: no uso escolar, o rótulo ficou reservado aos dois países do norte. O arquipélago inteiro fala quatro línguas europeias e vários crioulos próprios, e nenhuma divisão binária dá conta da lista.
A divisão física em três não é a divisão cultural em duas
O IBGE trabalha com a divisão física em três Américas: do Norte, Central e do Sul. Ela não pergunta que língua se fala em lugar nenhum. Ela pergunta onde a terra se estreita, e a resposta do sul é o istmo do Panamá, a emenda entre a massa de cima e a de baixo.
A prova da emenda está no asfalto. A Rodovia Pan-Americana atravessa o continente do Alasca ao extremo sul com uma única interrupção, no Darién, uma faixa de floresta e pântano de cerca de cem quilômetros que os mapas rodoviários oficiais do Panamá e da Colômbia mostram sem estrada.
Na América tem um país onde a língua oficial é o holandês: o Suriname, que a Holanda ficou no século 17 numa troca de colônias que entregou aos ingleses a ilha onde hoje fica Nova York, e na rua o que se fala mesmo é o sranan tongo.
Veja também
Argentina e Uruguai: o mesmo sol em duas bandeiras vizinhas
Capitais que mudaram de lugar, e a razão geográfica de cada uma
Geografia do Dia está chegando
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.