O mapa · Fronteira
América Anglo-Saxônica e América Latina: onde a linha passa
Por Redação Geografia do Dia · Mundo · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- A língua é o critério mais usado, e o mais furado
- O colonizador explica melhor, e ainda deixa buraco
- O rio que virou marco, e o trecho que é linha reta
- O México, que cabe nos dois lados do mapa
- O Caribe, onde a língua conta a história inteira
- Cada instituição divide o continente de um jeito
- O que a divisão em duas apaga
- Linha do tempo dos nomes
- A divisão física em três não é a divisão cultural em duas
- Perguntas frequentes
A linha que separa a América Anglo-Saxônica da América Latina não está desenhada no chão. Ela é um critério, e existe mais de um critério em uso ao mesmo tempo, o que explica por que dois mapas escolares confiáveis colorem o continente de jeitos diferentes.
O primeiro critério é a língua que se fala. O segundo é quem colonizou. O terceiro é físico e não fala de gente nenhuma: ele pergunta apenas onde a terra se estreita e uma América vira outra.
Os três se cruzam num ponto só, na fronteira do norte, e brigam entre si em quase todo o resto do mapa.
A língua é o critério mais usado, e o mais furado
Pelo critério da língua, a América Anglo-Saxônica são os países onde o inglês predomina: Estados Unidos e Canadá. A conta começa a vazar já no segundo nome da lista.
O Canadá tem duas línguas oficiais federais, inglês e francês, pela lei de línguas oficiais do país, e o francês é a língua majoritária no Quebec. O bolsão francófono não é resto histórico solto no mapa: ele se concentra no vale do rio São Lourenço, o corredor por onde a colonização francesa entrou no continente e onde ela ficou.
O colonizador explica melhor, e ainda deixa buraco
O termo América Latina passou a circular no século 19 para nomear a parte colonizada por países de língua derivada do latim: Espanha, Portugal e França. É um critério mais estável que o da língua falada hoje, porque colonização não muda depois de ter acontecido.
Ele também vaza. A Luisiana foi francesa e hoje está no bloco anglófono. O Quebec continua francófono e está no mesmo bloco. O Belize foi colônia britânica e senta no meio da América Central, onde quase todo mapa escolar prefere agrupá-lo com os vizinhos por posição, e não por herança.
O rio que virou marco, e o trecho que é linha reta
A fronteira entre Estados Unidos e México segue um rio em boa parte do traçado. Ele troca de nome ao atravessar: Rio Grande de um lado, Río Bravo del Norte do outro, e o tratado de 1848 entre os dois países fixou o leito como limite do golfo até a altura de El Paso.
O rio responde por quase dois terços da linha. O resto, do deserto até o Pacífico, é uma reta desenhada na prancheta e materializada no chão por quase três centenas de marcos de pedra, mantidos pela comissão binacional de limites e águas que os dois governos sustentam juntos.
Rio de planície não fica parado. Quando o leito migra, o limite entra em disputa técnica, e o caso mais conhecido do Rio Grande só terminou quando os dois lados concordaram em canalizar o trecho urbano em concreto. Por que a linha passa ali virou, naquele pedaço, uma obra de engenharia.
O México, que cabe nos dois lados do mapa
Fisicamente, o México está na América do Norte. Culturalmente, ele é o país mais populoso da América Latina. Os dois enunciados são verdadeiros ao mesmo tempo, e a contradição só aparece para quem acha que as duas divisões são a mesma divisão.
O instituto de geografia e estatística mexicano publica a geografia oficial do país, e os mapas físicos costumam emendar as duas Américas no istmo de Tehuantepec, a cintura de pouco mais de duzentos quilômetros de largura onde o território afina de oceano a oceano.
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O Caribe, onde a língua conta a história inteira
O Caribe é onde a divisão em duas caixas fica sem caixa. O Haiti tem francês e crioulo como línguas oficiais, pelo texto constitucional do país, o que o coloca na América Latina tanto pelo critério da língua quanto pelo do colonizador.
A Jamaica tem o inglês como língua oficial, registrado pelo próprio governo jamaicano, e ainda assim ninguém a chama de anglo-saxônica: no uso escolar, o rótulo ficou reservado aos dois países do norte. O arquipélago inteiro fala quatro línguas europeias e vários crioulos próprios, e nenhuma divisão binária dá conta da lista.
Cada instituição divide o continente de um jeito
A pergunta sobre quantas Américas existem não tem resposta única porque cada organismo adota o recorte que serve ao próprio trabalho.
A divisão estatística usada pelas Nações Unidas separa a América do Norte, contendo os países do topo do mapa, da América Latina e Caribe, tratada como um bloco só. A escolha é de estatística, feita para agrupar séries comparáveis, e não uma tese sobre cultura.
A divisão física adotada pelo IBGE e por boa parte do ensino brasileiro trabalha com três Américas, do Norte, Central e do Sul, e ignora língua e colonizador por completo. Ela pergunta apenas onde a terra se estreita.
A divisão esportiva junta o continente inteiro numa organização só, com todos os países e territórios competindo sob o mesmo guarda-chuva, o que inclui entidades que não são Estados soberanos.
A divisão econômica desenha ainda outro mapa, com blocos comerciais que atravessam qualquer fronteira cultural, reunindo países do norte e do sul na mesma mesa de negociação.
O resultado prático é que nenhum mapa está errado. Antes de discutir onde a linha passa, vale perguntar qual pergunta o mapa foi feito para responder, porque cada divisão responde uma diferente e todas continuam em uso ao mesmo tempo.
O que a divisão em duas apaga
Dividir o continente entre herança inglesa e herança latina descreve o colonizador e silencia sobre quem já estava aqui, e o silêncio some com informação que segue viva no mapa.
O Paraguai é o caso mais direto. O guarani é língua oficial ao lado do espanhol pelo texto constitucional do país, e é falado pela maior parte da população, inclusive por quem não tem ascendência indígena. Um país latino-americano em que a língua originária é majoritária não cabe confortavelmente em nenhuma das duas caixas.
Na região andina a situação se repete com outros nomes. Quéchua e aimará têm reconhecimento oficial em textos constitucionais de países da região, e a Bolívia lista dezenas de idiomas oficiais no próprio texto fundamental, um dos maiores números do mundo.
No México, a lei de direitos linguísticos reconhece as línguas indígenas nacionais como línguas nacionais em pé de igualdade com o espanhol nos territórios onde são faladas, e o número de línguas envolvidas passa de sessenta.
No norte do continente, territórios do Ártico canadense adotam línguas inuítes como oficiais ao lado do inglês e do francês, o que mostra que a lacuna não é exclusividade do sul do mapa.
A conclusão útil não é abandonar a divisão, que continua servindo para muita coisa. É lembrar que ela descreve uma camada da história, a da colonização europeia, e que qualquer mapa linguístico do continente é bem mais complicado que duas cores.
Linha do tempo dos nomes
- 1507Um mapa impresso na Europa usa pela primeira vez o nome América para as terras a oeste do Atlântico, batizando o continente inteiro a partir de um único navegador.
- Século 19O termo América Latina começa a circular entre intelectuais franceses e hispano-americanos para nomear a parte do continente colonizada por países de língua derivada do latim.
- 1848O tratado que encerra a guerra entre Estados Unidos e México fixa o rio como limite entre os dois países do golfo até a altura de El Paso, e desenha na prancheta o restante da linha até o Pacífico.
- 1889A primeira conferência internacional americana reúne os países do continente e inaugura a ideia de um sistema pan-americano, que agrupa todos sob a mesma mesa.
- 1948É criada a organização regional que reúne os Estados do continente, consolidando institucionalmente o recorte que trata as Américas como um conjunto único.
- Segunda metade do século 20As divisões estatísticas internacionais se firmam em grupos padronizados, e a expressão América Latina e Caribe passa a ser a unidade usada em séries comparáveis de dados.
A divisão física em três não é a divisão cultural em duas
O IBGE trabalha com a divisão física em três Américas: do Norte, Central e do Sul. Ela não pergunta que língua se fala em lugar nenhum. Ela pergunta onde a terra se estreita, e a resposta do sul é o istmo do Panamá, a emenda entre a massa de cima e a de baixo.
A prova da emenda está no asfalto. A Rodovia Pan-Americana atravessa o continente do Alasca ao extremo sul com uma única interrupção, no Darién, uma faixa de floresta e pântano de cerca de cem quilômetros que os mapas rodoviários oficiais do Panamá e da Colômbia mostram sem estrada.
Na América tem um país onde a língua oficial é o holandês: o Suriname, que a Holanda ficou no século 17 numa troca de colônias que entregou aos ingleses a ilha onde hoje fica Nova York, e na rua o que se fala mesmo é o sranan tongo.
Perguntas frequentes
O que é a América Anglo-Saxônica?
É o rótulo escolar usado para a parte do continente colonizada por britânicos e onde o inglês predomina, em geral aplicado a Estados Unidos e Canadá. O critério vaza no segundo nome da lista, porque o Canadá tem duas línguas oficiais federais e o francês é majoritário no Quebec.
Qual a diferença entre América Latina e América Anglo-Saxônica?
O critério mais estável é o do colonizador: América Latina nomeia a parte colonizada por países de língua derivada do latim, Espanha, Portugal e França. O critério da língua falada hoje é o mais usado e o menos preciso, e nenhum dos dois coincide com a divisão física em três Américas.
O México é América do Norte ou América Latina?
Os dois, e as afirmações não se contradizem. Fisicamente, ele está na América do Norte. Culturalmente, é o país mais populoso da América Latina. A contradição só aparece para quem supõe que a divisão física e a divisão cultural são a mesma.
Onde fica a fronteira entre Estados Unidos e México?
Ela segue um rio em cerca de dois terços do traçado, do golfo até a altura de El Paso, conforme o tratado de 1848. O restante, do deserto ao Pacífico, é uma reta desenhada na prancheta e materializada por quase três centenas de marcos de pedra mantidos por uma comissão binacional.
O Caribe é América Latina?
Depende do país e do critério. O Haiti tem francês e crioulo como línguas oficiais e entra na América Latina pelos dois critérios. A Jamaica tem o inglês como língua oficial e mesmo assim não recebe o rótulo anglo-saxônico no uso escolar. O arquipélago fala quatro línguas europeias e vários crioulos próprios.
Por que existe uma interrupção na Rodovia Pan-Americana?
Por causa do Darién, uma faixa de floresta e pântano de cerca de cem quilômetros entre o Panamá e a Colômbia, que os mapas rodoviários oficiais dos dois países mostram sem estrada. É a única interrupção de uma via que atravessa o continente do Alasca ao extremo sul.
Quantas Américas existem?
Depende de quem divide. A divisão física usada no ensino brasileiro trabalha com três; a divisão estatística das Nações Unidas separa América do Norte de América Latina e Caribe; a divisão esportiva trata o continente como um bloco único. Todas continuam em uso, para perguntas diferentes.
O que a divisão em duas Américas deixa de fora?
As línguas originárias, que seguem oficiais em vários países. O guarani divide a oficialidade com o espanhol no Paraguai e é falado pela maioria da população; quéchua e aimará têm reconhecimento nos Andes; a Bolívia lista dezenas de idiomas oficiais; e territórios do Ártico canadense adotam línguas inuítes.
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