O mapa · Bandeira

A única bandeira do mundo com uma Bíblia aberta no meio

Mundo · Leitura de 5 minutos

Carta de papel dobrada exatamente ao meio sobre mesa de madeira clara, as duas metades em papéis de textura levemente diferente, luz de dia difusa entrando pela esquerda e uma fita verde escura pousada sobre a dobra

Nenhuma outra bandeira de país carrega um livro aberto no centro. A da República Dominicana carrega, e o livro é uma Bíblia, aberta numa página escolhida a dedo.

Antes do livro, porém, vem o corte. Uma cruz branca divide o pano em quatro campos, dois azuis e dois vermelhos, alternados na diagonal. O desenho não saiu do nada: ele saiu de uma tesoura passada na bandeira do vizinho.

E o vizinho, aqui, não fica do outro lado do mar. Fica do outro lado de uma linha de terra, dentro da mesma ilha, e é a única fronteira terrestre que o país tem.

A cruz branca: o corte feito na bandeira do vizinho

O território era governado pelo Haiti quando o movimento que pregava a separação, a Trinitária, precisou de um símbolo. A solução foi pegar o bicolor azul e vermelho do país que ali mandava, atravessar uma cruz branca no meio e trocar a posição dos campos.

O resultado guarda as duas cores originais e cria uma leitura nova: a cruz branca por cima de tudo, cortando o pano de ponta a ponta. A Constituição dominicana descreve a bandeira campo a campo até hoje, incluindo a cruz e a ordem das cores.

É bandeira nascida de subtração. Poucos países desenham a própria identidade recortando literalmente a identidade de quem estava no comando.

Os quadrantes: azul e vermelho trocados na diagonal

Com a cruz posta, o pano fica com quatro quadrantes. Azul no alto junto ao mastro, vermelho no alto do lado livre, vermelho embaixo junto ao mastro, azul embaixo do lado livre. Cada cor aparece duas vezes, em cantos opostos.

A leitura oficial que o Estado dominicano publica dá o azul à liberdade e ao céu que cobre a ilha, o vermelho ao sangue de quem lutou, e a cruz branca ao sacrifício que uniu os dois. O arranjo em diagonal veio da troca de campos feita no recorte, não de uma escolha de estética.

Existe ainda a versão civil, sem brasão, com os mesmos quadrantes. A do Estado leva o escudo no cruzamento dos braços.

A Bíblia aberta, e a página que ela mostra

No centro fica o escudo, com os quadrantes repetidos em miniatura, um ramo de louro de um lado e uma palma do outro, uma cruz pequena e o livro aberto embaixo dela. Acima, a fita com o lema do país; abaixo, a fita com o nome da república.

O livro está aberto no Evangelho de João, no capítulo 8, no versículo em que a passagem diz que a verdade libertará. A escolha aparece nos textos oficiais que descrevem o escudo e é o detalhe que separa a bandeira de todas as outras: é o único pavilhão nacional que exibe um trecho bíblico identificável.

Como o desenho do escudo depende de artista, a lei dominicana já teve que padronizar o modelo mais de uma vez. As versões antigas circulam até hoje em prédio público.

A fronteira que corta a ilha em dois países

A ilha se chama Hispaniola e é a segunda maior das Antilhas, atrás só de Cuba. Dois países dividem os seus quase 76 mil quilômetros quadrados, e a linha entre eles corre por perto de 380 quilômetros de norte a sul.

A divisão começou como acordo entre duas coroas europeias, no fim do século 17, e foi ajustada por tratado assinado pelos dois países já independentes, na década de 1920, com revisão poucos anos depois. O traçado se apoia em rio nas pontas: um rio de fronteira no extremo norte, outro no extremo sul, e no meio a linha sobe a serra.

Os números da extensão da fronteira variam de fonte pra fonte, porque cada levantamento mede as curvas do rio com resolução diferente. A divergência é de dezenas de quilômetros, e nenhum dos dois lados discute o traçado por causa dela.

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Por que chove diferente de cada lado da mesma ilha

No meio da ilha corre a Cordilheira Central, que guarda o ponto mais alto de todo o Caribe, acima de três mil metros. Ela fica atravessada no caminho dos ventos alísios, que sopram do leste.

O ar úmido do Atlântico bate na serra pelo lado leste, sobe, esfria e chove. Do lado oeste, o mesmo ar desce já seco, e vastas áreas ficam na sombra de chuva. O país do lado leste recebe mais água por conta do relevo, sem nenhum mérito de governo.

O porquê que não expira está aí: solo, chuva e serra decidiram parte da história econômica dos dois lados antes de qualquer tratado. A linha da fronteira, essa sim, foi assinada em papel.

A linha que aparece na foto de satélite

O contraste de vegetação entre os dois lados é tão marcado que a fronteira aparece nas imagens de satélite sem precisar de legenda: mata mais fechada de um lado, encosta mais aberta do outro. As fotos do programa Landsat, publicadas pelo observatório da Terra da NASA, mostram a linha desenhada pela cor.

Vale a ressalva de quem mede: as estimativas de cobertura florestal dos dois países divergem bastante, porque cada levantamento define floresta de um jeito, e recontagens recentes por satélite elevaram números que circulavam há décadas.

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