O mapa · Bandeira

Filipinas: a bandeira que muda de posição em tempo de guerra

Mundo · Leitura de 5 minutos

Muitos pedacinhos de papel claro espalhados num arco sobre mesa de madeira clara, um deles preso por tachinha verde escura, luz de dia difusa entrando pela esquerda e sombras abertas

A bandeira das Filipinas faz uma coisa que nenhuma outra bandeira nacional em uso faz: ela é hasteada de cabeça pra baixo quando o país está em guerra declarada.

Em tempo de paz, a faixa azul fica em cima. Declarado o estado de guerra, o vermelho sobe e o azul desce, com o triângulo branco e o sol parados no mesmo lugar. A regra está escrita no código da bandeira e da heráldica das Filipinas, a lei que descreve o pano oficial.

O resto do desenho também é contagem. Oito raios no sol, três estrelas nos cantos do triângulo, e atrás de tudo um arquipélago que ninguém terminou de contar.

As duas posições: a única bandeira que se inverte por lei

Bandeira invertida costuma ser sinal de socorro no mar, e içar errado costuma ser gafe de cerimônia. No caso filipino, a inversão é protocolo.

O código da bandeira determina a troca durante estado de guerra declarado, e a lei trata o gesto como uso correto do símbolo, nunca como desrespeito. O pano é o mesmo; muda a ordem das faixas.

O desenho aguenta a inversão porque é simétrico no eixo horizontal. O triângulo branco fica encostado no mastro e o sol continua de pé nas duas posições, então nada aparece de ponta-cabeça. Uma bandeira com brasão fora do centro não teria a mesma sorte, e é a geometria, não a política, que permite a troca.

Os oito raios do sol: as províncias que se levantaram primeiro

O sol do triângulo tem oito raios grandes, e cada raio marca uma das primeiras províncias que pegaram em armas contra a coroa espanhola no fim do século 19. Manila, Cavite, Bulacan e Pampanga estão entre elas, pela lista que a comissão histórica nacional das Filipinas publica.

O sol nascente já era o símbolo da revolução antes de existir república, e reaparece no código da bandeira em vigor como marca de independência conquistada.

Existe divergência de fonte na contagem. A proclamação de independência do fim do século 19 nomeia as províncias de um jeito, e leituras posteriores da comissão histórica trocam ou incluem nomes na lista. O número oito nunca mudou. Quais são as oito continua em debate entre historiadores, e os dois textos estão publicados.

As três estrelas: Luzon, Visayas e Mindanao

Cada canto do triângulo carrega uma estrela de cinco pontas, e as três repartem o país em três blocos de ilhas.

Luzon é o bloco do norte, com a maior ilha do arquipélago e a capital. Visayas é o miolo, um punhado de ilhas médias picotadas por mares internos estreitos. Mindanao é o bloco do sul, com a segunda maior ilha do país.

A divisão não é enfeite administrativo, é a forma do território. Entre um bloco e outro só se chega de balsa ou de avião, e o governo trata os três como regiões distintas no planejamento de transporte e de defesa.

O miolo do país é mais mar que terra. Entre as ilhas de Visayas correm estreitos curtos, e a balsa faz o papel que a estrada faz em país contínuo. O porquê que não expira está no formato: um território picado em milhares de pedaços organiza transporte, censo e defesa em torno da água que separa os pedaços, e a bandeira registrou a divisão em três estrelas.

Aqui as fontes também divergem. A proclamação de independência associa a terceira estrela à ilha de Panay, no miolo do arquipélago, enquanto o código da bandeira em vigor fala em Visayas, o conjunto inteiro. O texto antigo e o texto atual não coincidem.

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As ilhas contadas: o número que mudou quando o levantamento melhorou

Por décadas o país foi descrito com 7.107 ilhas. O número aparecia em livro escolar, em folheto de turismo e em documento de governo, sempre igual.

Na metade da década de 2010, a autoridade nacional de mapeamento e informação de recursos das Filipinas revisou a contagem com imagem de satélite e levantamento hidrográfico, e chegou a 7.641 ilhas. O território não cresceu. O método enxergou melhor.

A definição usada explica a diferença. Ilha, no levantamento oficial, é a porção de terra que continua acima da linha da maré alta. Banco que some na maré fica fora da conta, e cada ponto novo confirmado entra.

Perto de duas mil dessas ilhas têm gente morando, segundo o mesmo levantamento. O arquipélago se estende por cerca de 1.800 quilômetros de norte a sul, e a distância ajuda a explicar por que a bandeira precisou de três estrelas em vez de uma.

As ilhas que ninguém batizou

Contar foi a parte fácil. Nomear, não.

Do total confirmado pela autoridade de mapeamento filipina, perto de cinco mil ilhas seguem sem nome registrado em documento oficial. São rochas, ilhotas e pedaços de recife que aparecem na carta náutica como um contorno mudo, com coordenada e sem batismo.

Um país pode conhecer o próprio território inteiro e ainda ter cinco mil endereços em branco, esperando alguém aparecer com um nome.

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