O mapa · Cartografia

Cartografia: as quatro decisões que todo mapa toma antes de existir

Mundo · Leitura de 5 minutos

Quatro instrumentos alinhados em fila sobre mesa de madeira clara, régua, compasso, lupa e lápis de corpo verde escuro, sobre papel quente quase branco na luz de dia difusa da esquerda

Todo mapa que você já viu passou por quatro decisões antes de existir. Nenhuma delas aparece no desenho, e as quatro juntas explicam por que dois mapas do mesmo lugar nunca saem iguais.

Cartografia é o ofício de tomar as quatro decisões na ordem certa. Escala, projeção, generalização e simbologia, nessa sequência, porque cada uma estreita as escolhas da seguinte.

A boa notícia: as quatro deixam rastro na margem da folha. Um mapa honesto declara cada uma delas, e um mapa que não declara está pedindo confiança sem mostrar a conta.

A escala: o que cabe e o que some

Escala é a razão entre o mapa e o mundo. A carta topográfica de um pra 25 mil é a folha mais detalhada da série sistemática brasileira. Cada centímetro dela vale 250 metros no chão.

A escala decide o que existe no mapa. Na folha de um pra 25 mil, uma casa isolada na estrada cabe. Na folha de um pra um milhão, a mesma casa some e a cidade inteira vira um círculo com nome ao lado.

O IBGE e a Diretoria de Serviço Geográfico do Exército publicam o país em escalas encaixadas dentro do Sistema Cartográfico Nacional, criado por decreto federal nos anos 1960. Cada folha cobre um retângulo fixo de latitude e longitude, e o retângulo encolhe conforme o detalhe aumenta.

Quem escolhe a escala está escolhendo quais perguntas o leitor vai poder fazer. Ninguém acha um poste num mapa de continente.

A projeção: a carta que serve pra navegar e mente sobre a área

Passar a superfície curva da Terra para o plano exige esticar alguma coisa. O cartógrafo escolhe o que preserva e assina embaixo o que aceita deformar.

A carta náutica é o exemplo limpo da escolha. As cartas publicadas pela Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil usam a projeção em que a linha de rumo constante aparece reta no papel. O navegador traça a régua entre dois pontos, lê o ângulo com o transferidor, ajusta o leme naquele ângulo e chega ao destino.

O preço da facilidade é a área. Na mesma carta, as superfícies incham quanto mais longe da linha do Equador, e comparar o tamanho de dois trechos em latitudes diferentes devolve resultado errado.

A projeção certa é a que serve ao uso, e ali mora o porquê que não expira. Pra navegar, o ângulo vale mais que a área. Pra repartir verba por região, a área vale mais que o ângulo, e a carta de rumo sai da mesa.

A generalização: o rio que endireita quando a folha encolhe

Reduzir a escala não é apertar o desenho. É reescrever o desenho.

A generalização tem quatro gestos, e o manual de convenções cartográficas do serviço geográfico do Exército descreve os quatro. Selecionar: sai o que não cabe mais. Simplificar: a curva do rio perde meandro e vira linha suave. Exagerar: a estrada é desenhada mais larga do que a largura real, porque traço fino demais some na impressão. Deslocar: estrada e ferrovia paralelas são afastadas uma da outra no papel pra não colarem.

O resultado é honesto e falso ao mesmo tempo. A estrada existe, e a largura dela no mapa está errada de propósito. Sem o exagero, ela sumiria da folha.

Costa de mar é o caso extremo. Quanto mais curta a régua de medida, mais recorte aparece, e o comprimento medido cresce sem parar. A costa não tem um comprimento único, tem um comprimento por escala, e por essa razão países vizinhos publicam números diferentes para a mesma costa.

A simbologia: por que a cidade vira ponto e a legenda decide tudo

Símbolo é a linguagem que o mapa combina com você. Ponto pra cidade, linha pra estrada, área pra vegetação, cor pra classe de uso do solo.

A convenção não é livre. As especificações técnicas do Sistema Cartográfico Nacional definem como cada feição é representada nas bases oficiais, pra que a folha de um estado converse com a folha do estado vizinho.

A hierarquia visual carrega opinião. Rodovia federal em traço grosso vermelho e estrada vicinal em traço fino cinza já dizem qual das duas o mapa considera importante.

E a legenda é a única parte da folha que explica o resto dela. Mapa sem legenda pede leitura de fé.

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Como checar um mapa antes de acreditar nele

Cinco perguntas resolvem quase tudo, e as cinco se respondem na margem da folha.

  • Quem publicou. Órgão oficial, universidade, empresa ou perfil anônimo mudam o peso do mapa.
  • De quando é o levantamento. Um limite municipal levantado há vinte anos pode ter mudado por lei estadual.
  • Qual a escala. Ela diz o que a folha pode responder e o que já foi descartado no desenho.
  • Qual o sistema de referência. No Brasil o oficial é o SIRGAS 2000, adotado pelo IBGE nos anos 2000, e sobrepor bases em referenciais diferentes desloca a mesma rua em metros.
  • Onde está a legenda. Sem ela, cor e traço viram chute.

Um mapa que responde as cinco ainda pode estar errado, e você consegue apontar onde. Um mapa que não responde nenhuma só pode ser aceito ou recusado inteiro.

A cidade que só existia no mapa

Cartógrafo copiado é cartógrafo sem prova. A defesa clássica do ofício é plantar uma entrada falsa na folha: uma rua curta que não existe, uma curva inventada, às vezes uma cidade inteira.

Agloe foi uma delas. Uma editora de mapas dos Estados Unidos pôs o nome num cruzamento vazio do interior do estado de Nova York, no começo do século 20, montado com as iniciais embaralhadas de quem desenhou a folha. Se o nome reaparecesse em mapa concorrente, a cópia estava provada.

O plano deu certo demais. Alguém leu a folha, foi até o cruzamento e abriu um comércio com o nome do lugar que não existia. A cidade-armadilha virou cidade por um tempo, porque um mapa disse que ela estava ali.

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