O mapa · Cartografia

Cartografia: as quatro decisões que todo mapa toma antes de existir

Por Redação Geografia do Dia · Mundo · Leitura de 11 minutos

Quatro instrumentos alinhados em fila sobre mesa de madeira clara, régua, compasso, lupa e lápis de corpo verde escuro, sobre papel quente quase branco na luz de dia difusa da esquerda

Todo mapa que você já viu passou por quatro decisões antes de existir. Nenhuma delas aparece no desenho, e as quatro juntas explicam por que dois mapas do mesmo lugar nunca saem iguais.

Cartografia é o ofício de tomar as quatro decisões na ordem certa. Escala, projeção, generalização e simbologia, nessa sequência, porque cada uma estreita as escolhas da seguinte.

A boa notícia: as quatro deixam rastro na margem da folha. Um mapa honesto declara cada uma delas, e um mapa que não declara está pedindo confiança sem mostrar a conta.

A escala: o que cabe e o que some

Escala é a razão entre o mapa e o mundo. A carta topográfica de um pra 25 mil é a folha mais detalhada da série sistemática brasileira. Cada centímetro dela vale 250 metros no chão.

A escala decide o que existe no mapa. Na folha de um pra 25 mil, uma casa isolada na estrada cabe. Na folha de um pra um milhão, a mesma casa some e a cidade inteira vira um círculo com nome ao lado.

O IBGE e a Diretoria de Serviço Geográfico do Exército publicam o país em escalas encaixadas dentro do Sistema Cartográfico Nacional, criado por decreto federal nos anos 1960. Cada folha cobre um retângulo fixo de latitude e longitude, e o retângulo encolhe conforme o detalhe aumenta.

Quem escolhe a escala está escolhendo quais perguntas o leitor vai poder fazer. Ninguém acha um poste num mapa de continente.

A projeção: a carta que serve pra navegar e mente sobre a área

Passar a superfície curva da Terra para o plano exige esticar alguma coisa. O cartógrafo escolhe o que preserva e assina embaixo o que aceita deformar.

A carta náutica é o exemplo limpo da escolha. As cartas publicadas pela Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil usam a projeção em que a linha de rumo constante aparece reta no papel. O navegador traça a régua entre dois pontos, lê o ângulo com o transferidor, ajusta o leme naquele ângulo e chega ao destino.

O preço da facilidade é a área. Na mesma carta, as superfícies incham quanto mais longe da linha do Equador, e comparar o tamanho de dois trechos em latitudes diferentes devolve resultado errado.

A projeção certa é a que serve ao uso, e ali mora o porquê que não expira. Pra navegar, o ângulo vale mais que a área. Pra repartir verba por região, a área vale mais que o ângulo, e a carta de rumo sai da mesa.

A generalização: o rio que endireita quando a folha encolhe

Reduzir a escala não é apertar o desenho. É reescrever o desenho.

A generalização tem quatro gestos, e o manual de convenções cartográficas do serviço geográfico do Exército descreve os quatro. Selecionar: sai o que não cabe mais. Simplificar: a curva do rio perde meandro e vira linha suave. Exagerar: a estrada é desenhada mais larga do que a largura real, porque traço fino demais some na impressão. Deslocar: estrada e ferrovia paralelas são afastadas uma da outra no papel pra não colarem.

O resultado é honesto e falso ao mesmo tempo. A estrada existe, e a largura dela no mapa está errada de propósito. Sem o exagero, ela sumiria da folha.

Costa de mar é o caso extremo. Quanto mais curta a régua de medida, mais recorte aparece, e o comprimento medido cresce sem parar. A costa não tem um comprimento único, tem um comprimento por escala, e por essa razão países vizinhos publicam números diferentes para a mesma costa.

A simbologia: por que a cidade vira ponto e a legenda decide tudo

Símbolo é a linguagem que o mapa combina com você. Ponto pra cidade, linha pra estrada, área pra vegetação, cor pra classe de uso do solo.

A convenção não é livre. As especificações técnicas do Sistema Cartográfico Nacional definem como cada feição é representada nas bases oficiais, pra que a folha de um estado converse com a folha do estado vizinho.

A hierarquia visual carrega opinião. Rodovia federal em traço grosso vermelho e estrada vicinal em traço fino cinza já dizem qual das duas o mapa considera importante.

E a legenda é a única parte da folha que explica o resto dela. Mapa sem legenda pede leitura de fé.

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Como checar um mapa antes de acreditar nele

Cinco perguntas resolvem quase tudo, e as cinco se respondem na margem da folha.

  • Quem publicou. Órgão oficial, universidade, empresa ou perfil anônimo mudam o peso do mapa.
  • De quando é o levantamento. Um limite municipal levantado há vinte anos pode ter mudado por lei estadual.
  • Qual a escala. Ela diz o que a folha pode responder e o que já foi descartado no desenho.
  • Qual o sistema de referência. No Brasil o oficial é o SIRGAS 2000, adotado pelo IBGE nos anos 2000, e sobrepor bases em referenciais diferentes desloca a mesma rua em metros.
  • Onde está a legenda. Sem ela, cor e traço viram chute.

Um mapa que responde as cinco ainda pode estar errado, e você consegue apontar onde. Um mapa que não responde nenhuma só pode ser aceito ou recusado inteiro.

A quinta decisão que ninguém vê: o referencial

Antes das quatro decisões deste texto existe uma anterior, que o cartógrafo herda em vez de escolher, e é a que mais causa erro prático quando ignorada.

A Terra não é uma esfera. Ela é achatada nos polos e tem superfície irregular, e a cartografia trabalha com duas aproximações empilhadas. A primeira é o elipsoide, uma figura matemática lisa que serve de base para o cálculo de coordenadas. A segunda é o geoide, a superfície que corresponde ao nível médio dos mares prolongado por baixo dos continentes, e é ela que define o que se chama de altitude.

O datum é o conjunto de parâmetros que amarra o elipsoide ao planeta real, dizendo onde ele fica e como está orientado. Trocar de datum muda as coordenadas de todos os pontos, sem que nada tenha se movido no chão.

O efeito prático é concreto. No Brasil, o sistema de referência oficial adotado pelo IBGE é o SIRGAS 2000, que substituiu referenciais anteriores usados por décadas. Sobrepor uma base antiga a uma base atual sem conversão desloca a mesma rua em dezenas de metros, e o erro passa despercebido porque as duas camadas parecem corretas isoladamente.

A regra de ouro do trabalho com mapas digitais sai daí: antes de cruzar duas bases, conferir se as duas estão no mesmo sistema de referência. É a checagem que separa um mapa útil de um mapa que parece certo e erra por um quarteirão.

Do papel ao SIG: como o mapa virou banco de dados

A cartografia moderna deixou de produzir folhas e passou a produzir camadas, e a mudança altera o que se pode perguntar a um mapa.

Um sistema de informação geográfica guarda a informação em duas famílias. Na representação vetorial, cada feição é registrada por coordenadas: pontos para postes e cidades, linhas para rios e estradas, polígonos para lotes e municípios. Cada elemento carrega uma tabela de atributos ao lado, com nome, categoria, população, data de levantamento.

Na representação matricial, o espaço é dividido numa grade de células iguais e cada célula guarda um valor: altitude, temperatura, refletância captada por satélite. É a forma natural para imagem de sensoriamento remoto e para modelo de terreno.

A diferença entre as duas define o que cada uma faz bem. Vetor responde perguntas sobre limites e ligações, do tipo quais lotes fazem frente para esta rua. Matriz responde perguntas sobre superfície contínua, do tipo qual a declividade média desta encosta.

A camada é a unidade de trabalho, e a operação central é o cruzamento. Sobrepor a camada de áreas alagáveis à de edificações produz uma pergunta respondida em segundos que a folha de papel só permitia estimar no olho. Toda a lógica das quatro decisões continua valendo dentro do sistema: escala, projeção, generalização e simbologia agora são propriedades de cada camada, e camadas construídas em escalas diferentes não devem ser cruzadas sem ressalva.

Linha do tempo da cartografia

  1. Século 2Cláudio Ptolomeu reúne em Alexandria coordenadas de milhares de localidades e instruções de projeção na obra que a Europa redescobriria mais de mil anos depois.
  2. 1569Gerardus Mercator publica a carta destinada à navegação, em que a linha de rumo constante aparece reta.
  3. Século 18A França conclui o primeiro mapa nacional levantado por triangulação sistemática, e o método vira padrão para os serviços geográficos nacionais que surgem em seguida.
  4. 1972É lançado o primeiro satélite de uma série dedicada à observação sistemática da superfície terrestre, e a imagem orbital passa a alimentar a produção cartográfica.
  5. Anos 1990O posicionamento por satélite se torna acessível a uso civil, e o levantamento de campo deixa de depender exclusivamente de triangulação e de nivelamento.
  6. Anos 2000O Brasil adota o SIRGAS 2000 como sistema de referência oficial, e os mapas digitais de acesso público colocam cartografia na tela de qualquer pessoa.

A cidade que só existia no mapa

Cartógrafo copiado é cartógrafo sem prova. A defesa clássica do ofício é plantar uma entrada falsa na folha: uma rua curta que não existe, uma curva inventada, às vezes uma cidade inteira.

Agloe foi uma delas. Uma editora de mapas dos Estados Unidos pôs o nome num cruzamento vazio do interior do estado de Nova York, no começo do século 20, montado com as iniciais embaralhadas de quem desenhou a folha. Se o nome reaparecesse em mapa concorrente, a cópia estava provada.

O plano deu certo demais. Alguém leu a folha, foi até o cruzamento e abriu um comércio com o nome do lugar que não existia. A cidade-armadilha virou cidade por um tempo, porque um mapa disse que ela estava ali.

Perguntas frequentes

O que é cartografia?

É o ofício de tomar quatro decisões na ordem certa antes do primeiro traço: escala, projeção, generalização e simbologia. Cada uma estreita as escolhas da seguinte, e as quatro juntas explicam por que dois mapas do mesmo lugar nunca saem iguais.

O que a escala de um mapa significa?

É a razão entre o mapa e o mundo. Numa carta de um para 25 mil, cada centímetro do papel vale 250 metros no chão. A escala decide o que existe no mapa: numa folha detalhada uma casa isolada cabe, e numa folha de continente a cidade inteira vira um círculo com nome ao lado.

O que é generalização cartográfica?

É a reescrita do desenho quando a escala diminui, com quatro gestos: selecionar o que continua na folha, simplificar curvas, exagerar a largura de estradas que sumiriam na impressão e deslocar feições paralelas para que não colem. O resultado é honesto e deliberadamente impreciso na medida.

O que é datum e por que ele importa?

É o conjunto de parâmetros que amarra o elipsoide de referência ao planeta real. Trocar de datum muda as coordenadas de todos os pontos sem que nada tenha se movido no chão. No Brasil, o sistema oficial é o SIRGAS 2000, e sobrepor bases em referenciais diferentes desloca a mesma rua em dezenas de metros.

Qual a diferença entre vetor e matriz num sistema de informação geográfica?

No vetor, cada feição é registrada por coordenadas, com pontos, linhas e polígonos acompanhados de uma tabela de atributos. Na matriz, o espaço é dividido numa grade de células e cada célula guarda um valor. Vetor responde bem a perguntas sobre limites; matriz, a perguntas sobre superfície contínua.

Como saber se um mapa é confiável?

Cinco perguntas resolvem quase tudo, e as cinco se respondem na margem da folha: quem publicou, de quando é o levantamento, qual a escala, qual o sistema de referência e onde está a legenda. Mapa que responde as cinco ainda pode errar, e você consegue apontar onde.

Por que existem cidades falsas em mapas?

Como defesa contra cópia. O cartógrafo planta uma entrada inexistente na folha, uma rua curta, uma curva inventada ou até um nome de povoado, e a reaparição do elemento num mapa concorrente prova o plágio. Um desses nomes chegou a virar comércio de verdade no cruzamento vazio onde tinha sido inventado.

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