O mapa · Explicador

Quantos países existem no mundo, e por que a conta muda

Por Redação Geografia do Dia · Mundo · Leitura de 11 minutos

Pilha alta de fichas de papel liso com uma tachinha verde escura fincada na ficha do topo, sobre mesa de madeira clara em luz de dia difusa entrando pela esquerda

A resposta mais usada é 193, e ela vem da ONU: é o número de Estados-membros que a organização publica na própria lista. A resposta está certa, e ainda assim ela não fecha a conta que a maioria das pessoas quer fazer.

Porque país não é uma categoria única. Tem Estado com cadeira e voto. Tem Estado com assento e sem voto. Tem território com governo próprio e sem cadeira nenhuma. E tem lugar que joga eliminatória de Copa do Mundo sem entrar em nenhuma das listas anteriores.

Cada critério devolve um número diferente. Vale saber qual deles você está usando antes de discutir o total com alguém.

193 é a resposta da ONU, e a entrada tem caminho fixo

A Carta da ONU descreve o caminho de admissão de um Estado novo: o Conselho de Segurança recomenda, e depois a Assembleia Geral aprova por maioria de dois terços. Sem os dois passos, não existe cadeira, por mais reconhecido que o país seja fora da sala.

O número 193 é, portanto, uma medida política com regra escrita, e não uma contagem de pedaços de terra emersa. Ele só mexe quando um Estado entra, e cada entrada fica registrada na lista que a organização mantém aberta ao público.

Repare no que a régua ignora. Ela não pergunta o tamanho do território, não pergunta quanta gente mora ali e não pergunta se a fronteira está toda demarcada no chão. Ela pergunta uma coisa só: quem votou a favor da entrada, e quando.

Dois observadores, que não são membros e não são pouca coisa

A ONU registra dois Estados observadores permanentes sem assento de membro: a Santa Sé e a Palestina. Os dois participam de sessões, assinam tratados, mantêm missão na sede e aparecem na lista oficial numa linha à parte, com o estatuto escrito ao lado.

A Santa Sé carrega o dado geográfico mais estranho da lista inteira: menos de meio quilômetro quadrado de território, área publicada pelo próprio Estado da Cidade do Vaticano, cercado por uma cidade só e sem fronteira com mais ninguém. Território pequeno não impede personalidade jurídica.

Reconhecimento parcial: a resposta depende de quem responde

Alguns lugares têm governo em funcionamento, população estável e limites administrados, e mesmo assim a lista de quem os reconhece varia. Kosovo é o caso mais citado: pouco mais de uma centena de Estados reconhecem, e a contagem exata muda porque cada reconhecimento é ato individual de um governo, feito e desfeito por decisão própria.

O mecanismo é simples de descrever e chato de contar, porque reconhecimento é bilateral. Quando duas fontes divergem no total de países do mundo, quase sempre é aqui que a divergência começa, e cada uma delas está usando uma régua declarada.

Territórios dependentes: governo próprio, cadeira nenhuma

A ONU mantém uma lista de territórios não autônomos, hoje com 17 nomes, revisada periodicamente pela própria organização. A Nova Caledônia está nela: um arquipélago no Pacífico que fica a mais de dezesseis mil quilômetros do país que o administra, com assembleia local e processo de consulta registrado em ata.

A Groenlândia mostra o outro arranjo possível. Ela tem governo e parlamento próprios dentro do Reino da Dinamarca, ficou fora da lista da ONU, e é dezenas de vezes maior em área que o reino a que pertence, pelos dados de superfície que o próprio governo groenlandês publica.

A diferença entre os dois casos é de processo, não de tamanho. Um está numa lista com procedimento de acompanhamento aberto; o outro resolveu a autonomia em casa, por acordo interno, e saiu do radar da organização sem virar Estado independente.

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Federações esportivas contam mais, e por um motivo prático

A FIFA publica 211 associações filiadas. O Comitê Olímpico Internacional publica 206 comitês nacionais. Os dois totais passam de 193 porque federação esportiva não exige soberania: exige uma entidade organizada, capaz de inscrever atletas, cumprir calendário e responder por disciplina.

As Ilhas Faroé mostram o critério funcionando no mapa. O arquipélago de dezoito ilhas no Atlântico Norte disputa eliminatórias europeias com seleção própria e não é membro da ONU, e a contagem de ilhas sai da página do próprio governo local.

Os quatro requisitos escritos em 1933

Antes de qualquer lista de organização internacional existe uma definição jurídica de Estado, e ela está num tratado assinado em Montevidéu, na Sétima Conferência Internacional Americana, em 1933.

O texto lista quatro requisitos. O primeiro é população permanente, sem exigir número mínimo. O segundo é território determinado, e a exigência é de existência, não de fronteira inteiramente demarcada, o que salva boa parte dos Estados do mundo. O terceiro é governo, entendido como autoridade efetiva sobre o território e a população. O quarto é capacidade de entrar em relações com outros Estados.

A convenção acrescenta uma frase que organiza a discussão inteira: a existência política do Estado independe do reconhecimento pelos demais. É a chamada teoria declaratória, segundo a qual o reconhecimento apenas constata algo que já existe.

Do outro lado está a teoria constitutiva, para a qual o Estado só existe plenamente na medida em que é reconhecido. A prática internacional mistura as duas, e o resultado é exatamente a bagunça de contagem descrita neste texto: uma entidade pode preencher os quatro requisitos e continuar fora das listas por falta de reconhecimento suficiente.

Vale guardar o critério porque ele explica os casos difíceis melhor que qualquer lista. Quando um lugar parece país e não aparece na conta, quase sempre falta o quarto requisito na prática, e não o primeiro ou o segundo.

Os casos que nenhuma régua resolve sozinha

Entre a lista de 193 e o mapa real ficam situações que cada fonte trata de um jeito, e conhecê-las evita discussão sem fim.

O primeiro grupo é o dos Estados com governo efetivo e reconhecimento restrito. Eles têm administração funcionando, emitem documento, arrecadam imposto e controlam território, com um número pequeno de reconhecimentos externos. A contagem varia porque cada reconhecimento é ato individual de um governo, concedido e retirado por decisão própria.

O segundo grupo é o dos territórios com estatuto especial dentro de um Estado maior, com parlamento próprio, orçamento próprio e às vezes moeda própria, sem buscar independência. Eles aparecem coloridos no mapa político, entram nas contagens de território e ficam fora da conta de países.

O terceiro grupo é o das micronações, declarações de soberania feitas por particulares sobre plataformas marítimas, faixas de terra em disputa ou propriedades privadas. Elas não preenchem os requisitos de Montevidéu, não têm reconhecimento e não entram em lista nenhuma, e sobrevivem como curiosidade jurídica e turística.

O quarto grupo é o das divisões que a geografia trata como continentes e a política não trata como países, e o inverso: ilhas minúsculas com cadeira na ONU e regiões continentais inteiras sem nenhuma.

Linha do tempo do número de países

  1. 1945A ONU é fundada com 51 Estados-membros originais, número que corresponde ao mapa político logo depois da Segunda Guerra.
  2. 1960Dezessete países africanos ingressam num único ano, no maior salto já registrado, num período que ficou conhecido como o ano da África.
  3. 1991A dissolução da União Soviética produz uma leva de Estados novos no leste europeu e na Ásia Central.
  4. 1993A separação da Tchecoslováquia em dois países é concluída por acordo, sem conflito armado, e serve de referência para dissoluções negociadas.
  5. 2002Timor-Leste ingressa depois de processo de independência acompanhado pela organização, e a Suíça entra no mesmo ano após consulta popular interna.
  6. 2011O Sudão do Sul é admitido como o membro mais recente, elevando a lista ao número usado até hoje.

Qual número usar, e quando

Para tratado, fronteira e documento de viagem, a régua é 193, porque quem assina é Estado-membro. Para mapa político impresso, o total cresce, porque território dependente ganha cor própria na folha e nome na legenda.

Para esporte, a régua é da federação, e ela é sempre a maior das três. Nenhuma está errada: elas respondem perguntas diferentes, e a discussão de mesa de bar só trava porque cada lado usa uma régua sem dizer qual.

O membro mais recente da ONU é o Sudão do Sul, admitido em 2011, e dentro dele fica o Sudd, o pântano que o Nilo Branco abre no meio do país e que muda de tamanho conforme a cheia do ano.

Perguntas frequentes

Quantos países existem no mundo?

A resposta mais usada é 193, o número de Estados-membros publicado pela ONU. Ela está correta e não fecha todas as contas: existem ainda dois observadores permanentes, territórios com governo próprio sem cadeira e entidades reconhecidas apenas por parte dos governos.

Por que a FIFA tem mais países que a ONU?

Porque federação esportiva não exige soberania. A FIFA publica 211 associações filiadas e o Comitê Olímpico Internacional, 206 comitês nacionais, porque o requisito é ter uma entidade organizada, capaz de inscrever atletas, cumprir calendário e responder por disciplina.

Quantos observadores permanentes a ONU tem?

Dois Estados: a Santa Sé e a Palestina. Eles participam de sessões, assinam tratados, mantêm missão na sede e aparecem na lista oficial numa linha à parte, com o estatuto escrito ao lado, sem assento de membro.

O Vaticano é um país?

A Santa Sé figura na lista da ONU como Estado observador permanente, e não como membro. Participa de sessões, assina tratados e mantém missão na sede. O território do Estado da Cidade do Vaticano tem menos de meio quilômetro quadrado, cercado por uma cidade só.

O que define um Estado no direito internacional?

Os quatro requisitos da Convenção de Montevidéu, de 1933: população permanente, território determinado, governo e capacidade de entrar em relações com outros Estados. O texto acrescenta que a existência política do Estado independe do reconhecimento pelos demais.

O que é um território dependente?

Um lugar com administração própria que não constitui Estado soberano. A ONU mantém uma lista de territórios não autônomos, hoje com 17 nomes. A Groenlândia mostra outro arranjo: tem governo e parlamento próprios dentro do Reino da Dinamarca e ficou fora dessa lista.

O que é uma micronação?

Uma declaração de soberania feita por particulares sobre plataformas marítimas, faixas de terra em disputa ou propriedades privadas. Elas não preenchem os requisitos da Convenção de Montevidéu, não têm reconhecimento de nenhum Estado e não entram em lista alguma, sobrevivendo como curiosidade jurídica e turística.

Reconhecimento é o que cria um país?

Existem duas teorias em disputa. A declaratória, adotada no texto de Montevidéu, sustenta que o reconhecimento apenas constata algo que já existe. A constitutiva sustenta que o Estado só existe plenamente na medida em que é reconhecido. A prática internacional mistura as duas, e daí vem a dificuldade de contagem.

Como um país entra na ONU?

Pelo caminho descrito na Carta da organização: o Conselho de Segurança recomenda a admissão e a Assembleia Geral aprova por maioria de dois terços. Sem os dois passos não existe cadeira, por mais reconhecido que o Estado seja fora da sala.

Por que fontes diferentes dão totais diferentes?

Porque cada uma usa uma régua declarada. Tratados e documentos de viagem seguem a lista de 193 Estados-membros; mapas políticos incluem territórios dependentes, que ganham cor própria na folha; federações esportivas passam de 200 porque não exigem soberania. Nenhuma está errada, e as três respondem perguntas diferentes.

Qual foi o último país a entrar na ONU?

O Sudão do Sul, admitido em 2011. Antes dele, Montenegro entrou em 2006, e Timor-Leste e Suíça em 2002. O maior salto da história aconteceu em 1960, quando dezessete países africanos ingressaram num único ano.

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