O mapa · Bandeira

A África não tem uma bandeira só, e o que existe no lugar

Por Redação Geografia do Dia · Mundo · Leitura de 11 minutos

Mapa de papel dobrado com um canto virado para cima, mostrando o verso em branco, sobre mesa de madeira clara em luz de dia difusa entrando pela esquerda

A África não tem bandeira. O continente é um recorte de terra, e bandeira é ato de governo: ela nasce de um texto de constituição ou de uma lei, aprovada por alguém com poder para aprovar.

O que existe é a bandeira de uma organização que reúne os países africanos, e o pano dela não representa o chão. A troca é comum, e o desenho que circula por aí como bandeira do continente costuma ser justamente o da organização.

O caminho até a resposta passa por uma contagem, uma troca de desenho, um país que atravessou a partilha europeia de pé e um mapa sem nenhuma linha dentro.

O continente não tem bandeira, e a razão é de contagem

A União Africana lista 55 Estados-membros no próprio site. A ONU conta 54 países africanos entre os membros dela, e a diferença entre as duas listas é de critério de admissão, não de erro de conta: cada organização registra o próprio caminho de entrada e publica a lista fechada.

Cada um desses países aprova a bandeira dele em casa, por lei ou por texto constitucional. Um pano único para o continente inteiro precisaria de um dono, e continente não tem dono: tem chão, tem placa tectônica, tem clima, e chão nenhum assina documento.

A União Africana tem uma, e ela trocou de desenho em 2010

A organização que veio antes usava outro pano, verde e dourado. A União Africana adotou o desenho atual em 2010, depois de um concurso aberto de propostas, e a descrição publicada pela própria União define o campo verde-escuro, o mapa do continente em dourado no meio e o anel de estrelas douradas em volta.

A sede fica em Adis Abeba, e a escolha da cidade não foi sorteio. Ela amarra a organização ao país que atravessou a partilha europeia com governo próprio, e é de lá que sai também a explicação das cores da paleta que meio continente adotou.

As cores saíram da Etiópia, e a razão está no planalto

Verde, amarelo e vermelho são as cores da Etiópia, descritas no texto constitucional do país junto com o disco azul e a estrela no meio. Quando as independências chegaram, no meio do século passado, país atrás de país adotou a mesma paleta, e a leitura de cada cor entrou no texto oficial de cada um deles.

A razão de a Etiópia servir de referência está no relevo. Boa parte do planalto etíope passa dos dois mil metros de altitude, pelo modelo de elevação da missão de radar do ônibus espacial, distribuído pelo serviço geológico dos Estados Unidos, e o Vale do Rift corta o país em diagonal.

Altitude custa caro para quem chega de fora. A campanha europeia do fim do século 19 quebrou no alto, e os tratados assinados depois registram o resultado. Por que a linha passa ali, no caso etíope, é resposta de montanha. A Libéria é o outro país que atravessou o período com governo próprio, por um caminho completamente diferente.

O emblema traz o mapa, e o mapa não tem fronteira dentro

O mapa dourado no meio do pano aparece sem nenhuma linha interna. A descrição oficial da União liga a silhueta cheia à ideia de unidade do continente, e a ausência das divisas é deliberada, não simplificação de desenhista.

O anel de estrelas tem contagem embutida. A descrição liga cada estrela a um Estado-membro, o que amarra o pano a um número que se mexe toda vez que alguém entra ou sai da organização. Bandeira de país envelhece devagar; bandeira de organização acompanha a lista de sócios.

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Nenhum continente tem bandeira, e a Europa mostra por quê

A bandeira azul com o círculo de estrelas não é da Europa. Ela foi adotada pelo Conselho da Europa na década de 1950 e depois assumida pelas instituições da União Europeia, e o próprio Conselho explica no site dele que as doze estrelas não contam países nem acompanham a entrada de novos membros.

A Antártida fecha o argumento pelo outro lado. O Tratado da Antártida organiza a gestão do continente entre os países signatários, não cria governo nem bandeira, e as versões que circulam por lá são propostas sem estatuto oficial nenhum.

São duas paletas pan-africanas, e elas não se misturam

A expressão cores pan-africanas nomeia dois conjuntos diferentes, com origens distintas, e confundi-los é o erro mais comum de quem começa a ler bandeiras do continente.

O primeiro conjunto é verde, amarelo e vermelho, a paleta etíope descrita neste texto. Ela se espalhou porque a Etiópia era a referência disponível de país africano com governo próprio quando as independências chegaram, e aparece em bandeiras da África Ocidental e do Chifre da África.

O segundo conjunto é vermelho, preto e verde, e vem de outro lugar: de uma organização fundada nas Américas no começo do século 20 por iniciativa de Marcus Garvey, que propôs essas três cores como bandeira das pessoas de ascendência africana espalhadas pelo mundo. A leitura associada a elas ficou registrada nos documentos da própria entidade: o vermelho ligado ao sangue compartilhado, o preto à pele e o verde à terra.

O segundo conjunto influenciou bandeiras de países africanos e caribenhos e virou símbolo de movimentos sociais em vários continentes, o que explica por que ele aparece com frequência fora do mapa africano.

Alguns países combinam as duas paletas, somando quatro cores, e alguns acrescentam o azul, associado ao mar, ao céu ou aos rios, dependendo do texto oficial de cada governo. A regra prática de leitura é a mesma de sempre: procurar o documento em que o próprio país registra o significado, porque a leitura correta é a que ele declara, e não a que a paleta sugere de longe.

O que as bandeiras africanas costumam registrar

Além das cores, um conjunto de figuras se repete pelo continente, e cada uma responde a uma pergunta de geografia ou de história.

A estrela isolada aparece com frequência e costuma marcar independência ou unidade nacional, com o texto oficial de cada país definindo qual das duas leituras vale ali.

Armas tradicionais, como lança e escudo, aparecem em bandeiras da África Oriental e Austral, e o registro oficial associa o par à defesa da soberania recém-conquistada.

Elementos de relevo e de vegetação também comparecem: a montanha que domina o horizonte de um país, o rio que o atravessa, a árvore característica do bioma. São os casos em que a bandeira funciona como resumo do mapa físico.

O sol nascente marca começo, e a lua com estrela indica a presença histórica do islã, sobretudo na faixa norte e no litoral oriental, por onde a rota de comércio entrou.

Por fim, vários países mantêm no pano um objeto de uso cotidiano, ferramenta agrícola ou instrumento musical, e a escolha costuma ser deliberada: ela desloca o símbolo nacional do campo militar para o campo do trabalho.

Linha do tempo

  1. Século 19A Libéria se estabelece como país com governo próprio, e a Etiópia mantém a independência ao fim da campanha europeia que termina em derrota estrangeira no planalto.
  2. Década de 1920Uma organização fundada nas Américas propõe vermelho, preto e verde como bandeira das pessoas de ascendência africana, criando a segunda paleta pan-africana.
  3. 1957Gana se torna independente e adota as cores etíopes com uma estrela negra no centro, e a escolha vira referência para a leva seguinte de independências.
  4. 1963É fundada em Adis Abeba a organização que antecede a União Africana, com bandeira própria em verde e dourado.
  5. 2002A União Africana substitui a organização anterior, ampliando o mandato e mantendo a sede na capital etíope.
  6. 2010A União adota o desenho atual da bandeira depois de um concurso aberto, com campo verde-escuro, mapa dourado sem fronteiras internas e um anel de estrelas correspondente aos Estados-membros.

O que responder quando pedirem a bandeira da África

A resposta curta tem duas partes. A primeira: escolha um país e diga o nome, porque a bandeira pertence a ele. A segunda: se a pergunta for pelo pano verde-escuro com o mapa dourado, ele é de uma organização, e o mandato dela termina onde termina a lista de membros.

A diferença sai da prova de escola e entra no mundo prático. Bandeira de país aparece em documento de fronteira, em registro de navio e em acordo assinado. Bandeira de organização aparece em cúpula, em sede e em missão conjunta.

Um país africano trocou de nome inteiro: o Burkina Faso se chamava Alto Volta até 1984, herança dos três rios Volta que nascem no território e descem para o sul, e o nome novo quer dizer terra da gente íntegra. A bandeira mudou junto, adotando as cores da paleta etíope com uma estrela amarela no centro, e o país passou a assinar o próprio mapa com um nome tirado de duas línguas locais em vez de um nome tirado da hidrografia colonial.

Perguntas frequentes

A África tem uma bandeira?

Não. Continente é recorte de terra, e bandeira é ato de governo, aprovada por lei ou por texto constitucional de quem tem poder para aprovar. O pano que costuma circular como bandeira do continente pertence à União Africana, uma organização, e o mandato dela termina onde termina a lista de membros.

Como é a bandeira da União Africana?

Campo verde-escuro, com o mapa do continente em dourado no centro e um anel de estrelas douradas em volta, desenho adotado em 2010 depois de um concurso aberto. O mapa aparece sem nenhuma fronteira interna, e a ausência das divisas é deliberada.

Quantos países existem na África?

A União Africana lista 55 Estados-membros e a ONU conta 54 países africanos entre os membros dela. A diferença é de critério de admissão, e não erro de contagem: cada organização registra o próprio caminho de entrada e publica a lista fechada.

Quais são as cores pan-africanas?

São dois conjuntos distintos. Verde, amarelo e vermelho vêm da bandeira etíope e se espalharam com as independências do meio do século 20. Vermelho, preto e verde vêm de uma organização fundada nas Américas no começo do século 20, e influenciaram bandeiras africanas, caribenhas e movimentos sociais.

Por que as cores da Etiópia viraram referência?

Porque o país atravessou a partilha europeia com governo próprio, e era a referência disponível quando as independências chegaram. A explicação geográfica está no relevo: boa parte do planalto etíope passa dos dois mil metros de altitude, e a campanha estrangeira do fim do século 19 quebrou no alto.

Que figuras se repetem nas bandeiras africanas?

A estrela isolada, que costuma marcar independência ou unidade; armas tradicionais como lança e escudo, associadas à defesa da soberania; elementos de relevo e vegetação, como a montanha ou a árvore característica; o sol nascente, que marca começo; e a lua com estrela, indicando a presença histórica do islã.

Nenhum continente tem bandeira?

Nenhum. A bandeira azul com o círculo de estrelas não é da Europa: foi adotada pelo Conselho da Europa na década de 1950 e depois assumida pelas instituições da União Europeia, e as doze estrelas não contam países. Na Antártida, o tratado que rege o continente não cria governo nem bandeira.

O que significa a estrela no anel da bandeira da União Africana?

Cada estrela corresponde a um Estado-membro, o que amarra o pano a um número que muda toda vez que alguém entra ou sai da organização. É a diferença estrutural entre bandeira de país, que envelhece devagar, e bandeira de organização, que acompanha a lista de sócios.

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