O mapa · Bandeira

Nova Zelândia e Austrália: por que as bandeiras se confundem

Mundo · Leitura de 5 minutos

Duas folhas de papel quase brancas idênticas lado a lado sobre mesa de madeira clara, uma levemente deslocada da outra, com fio verde escuro esticado entre elas na luz de dia difusa da esquerda

Duas bandeiras azuis, com o mesmo desenho britânico no canto de cima e um punhado de estrelas do lado direito. Num pátio de evento internacional, com o pano meio enrolado no mastro, trocar a bandeira da Nova Zelândia pela da Austrália é rotina.

A diferença existe e é contável. Quantas estrelas, de que cor, com quantas pontas, e se sobra alguma fora da constelação.

O parecido não vem de cópia de um pelo outro. Os dois desenhos saíram da mesma peça náutica colonial e apontam pro mesmo céu, o do hemisfério sul, onde a mesma constelação fica pendurada o ano inteiro.

O cantão: o pedaço herdado, idêntico nas duas

O canto superior esquerdo das duas bandeiras traz a bandeira do Reino Unido, herança direta do pavilhão azul que embarcações ligadas às colônias britânicas usavam no mar.

É o único elemento realmente igual, e é o responsável pela confusão a dez metros de distância. O fundo azul-escuro repete pela mesma origem náutica, e a proporção do pano também.

Da metade da bandeira pra direita, começa a diferença. Tudo que separa os dois países está espalhado naquela metade, em estrela.

As estrelas: quatro contra seis

A Nova Zelândia carrega quatro estrelas, e nada além. São as quatro mais brilhantes do Cruzeiro do Sul, a constelação que a lei neozelandesa de proteção de bandeiras, emblemas e nomes descreve na definição oficial do pano.

A Austrália carrega seis. Cinco formam o mesmo Cruzeiro do Sul, incluindo uma quinta estrela pequena e fraca que a vizinha deixou de fora do desenho. A sexta fica sozinha embaixo do cantão e não pertence a constelação nenhuma.

A mesma constelação aparece também nas bandeiras de Papua-Nova Guiné e de Samoa, todas de países do hemisfério sul. Contar é o teste mais rápido no pátio: quatro estrelas, Nova Zelândia; seis, Austrália.

A cor das estrelas: vermelhas com borda contra brancas puras

As quatro estrelas neozelandesas são vermelhas, com uma borda branca em volta que faz a figura destacar sobre o azul-escuro. As australianas são brancas, sem borda.

A cor resolve a dúvida antes da contagem, porque mancha se enxerga de longe e ponta de estrela não. Bandeira ao vento, meio dobrada no mastro, o vermelho entrega a Nova Zelândia na hora.

A borda branca tem função técnica, não decorativa. Vermelho encostado em azul-escuro some de longe, e o filete claro entre as duas cores devolve o contorno.

A estrela a mais: sete pontas pra federação

A sexta estrela australiana se chama Estrela da Comunidade, fica grande e sozinha embaixo do cantão, e tem sete pontas: seis pelas colônias que se juntaram no ano da federação e uma pelos territórios, segundo a página oficial do governo australiano sobre a bandeira nacional.

Dentro da constelação, as pontas também contam. Quatro estrelas do Cruzeiro do Sul australiano têm sete pontas cada uma, e a menor delas tem cinco. A Nova Zelândia padronizou o desenho inteiro em cinco pontas.

O Cruzeiro do Sul ocupa o menor pedaço de céu entre as 88 constelações reconhecidas pela União Astronômica Internacional, e mesmo assim virou identidade nacional de um lado a outro do Pacífico Sul. O porquê que não expira está na latitude: da altura da Nova Zelândia a constelação nunca se põe, e quem mora no norte da Europa nunca a viu no céu.

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O referendo: quando a Nova Zelândia votou pra trocar de bandeira

Na metade da década de 2010, a Nova Zelândia levou o próprio pano a voto, em duas rodadas. A primeira escolheu, entre propostas enviadas pelo público, um desenho alternativo com a folha de samambaia prateada, o símbolo que as seleções esportivas do país usam no peito. A segunda pôs o desenho alternativo contra a bandeira em uso.

A bandeira em uso ganhou, com pouco mais de 56% dos votos válidos, pelo resultado publicado pela comissão eleitoral neozelandesa. A discussão nunca foi de estética. De um lado, o argumento de que o cantão britânico já não descreve a composição do país. Do outro, a memória: o pano atual acompanha delegação e cerimônia desde o começo do século 20, quando a bandeira foi fixada em lei.

A Austrália nunca levou a própria bandeira a referendo nacional. O desenho australiano saiu de um concurso público aberto no ano em que as colônias viraram federação, e a lei australiana das bandeiras confirmou a escolha décadas depois.

Duas costas, e nenhuma fronteira entre elas

Vizinho, no mapa, costuma significar linha compartilhada. Os dois países não dividem nenhuma.

Entre a costa leste da Austrália e a costa oeste da Nova Zelândia estão perto de 2.000 quilômetros de mar aberto. O trecho tem nome próprio nas cartas náuticas dos dois lados: Mar da Tasmânia.

Os dois países tratam a travessia pelo mesmo apelido, the Ditch, a vala. Atravessar a vala é como se diz por lá, numa piada que só funciona por causa da distância que ela finge não existir.

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