O mapa · Bandeira

Nova Zelândia e Austrália: por que as bandeiras se confundem

Por Redação Geografia do Dia · Mundo · Leitura de 11 minutos

Duas folhas de papel quase brancas idênticas lado a lado sobre mesa de madeira clara, uma levemente deslocada da outra, com fio verde escuro esticado entre elas na luz de dia difusa da esquerda

Duas bandeiras azuis, com o mesmo desenho britânico no canto de cima e um punhado de estrelas do lado direito. Num pátio de evento internacional, com o pano meio enrolado no mastro, trocar a bandeira da Nova Zelândia pela da Austrália é rotina.

A diferença existe e é contável. Quantas estrelas, de que cor, com quantas pontas, e se sobra alguma fora da constelação.

O parecido não vem de cópia de um pelo outro. Os dois desenhos saíram da mesma peça náutica colonial e apontam pro mesmo céu, o do hemisfério sul, onde a mesma constelação fica pendurada o ano inteiro.

O cantão: o pedaço herdado, idêntico nas duas

O canto superior esquerdo das duas bandeiras traz a bandeira do Reino Unido, herança direta do pavilhão azul que embarcações ligadas às colônias britânicas usavam no mar.

É o único elemento realmente igual, e é o responsável pela confusão a dez metros de distância. O fundo azul-escuro repete pela mesma origem náutica, e a proporção do pano também.

Da metade da bandeira pra direita, começa a diferença. Tudo que separa os dois países está espalhado naquela metade, em estrela.

As estrelas: quatro contra seis

A Nova Zelândia carrega quatro estrelas, e nada além. São as quatro mais brilhantes do Cruzeiro do Sul, a constelação que a lei neozelandesa de proteção de bandeiras, emblemas e nomes descreve na definição oficial do pano.

A Austrália carrega seis. Cinco formam o mesmo Cruzeiro do Sul, incluindo uma quinta estrela pequena e fraca que a vizinha deixou de fora do desenho. A sexta fica sozinha embaixo do cantão e não pertence a constelação nenhuma.

A mesma constelação aparece também nas bandeiras de Papua-Nova Guiné e de Samoa, todas de países do hemisfério sul. Contar é o teste mais rápido no pátio: quatro estrelas, Nova Zelândia; seis, Austrália.

A cor das estrelas: vermelhas com borda contra brancas puras

As quatro estrelas neozelandesas são vermelhas, com uma borda branca em volta que faz a figura destacar sobre o azul-escuro. As australianas são brancas, sem borda.

A cor resolve a dúvida antes da contagem, porque mancha se enxerga de longe e ponta de estrela não. Bandeira ao vento, meio dobrada no mastro, o vermelho entrega a Nova Zelândia na hora.

A borda branca tem função técnica, não decorativa. Vermelho encostado em azul-escuro some de longe, e o filete claro entre as duas cores devolve o contorno.

A estrela a mais: sete pontas pra federação

A sexta estrela australiana se chama Estrela da Comunidade, fica grande e sozinha embaixo do cantão, e tem sete pontas: seis pelas colônias que se juntaram no ano da federação e uma pelos territórios, segundo a página oficial do governo australiano sobre a bandeira nacional.

Dentro da constelação, as pontas também contam. Quatro estrelas do Cruzeiro do Sul australiano têm sete pontas cada uma, e a menor delas tem cinco. A Nova Zelândia padronizou o desenho inteiro em cinco pontas.

O Cruzeiro do Sul ocupa o menor pedaço de céu entre as 88 constelações reconhecidas pela União Astronômica Internacional, e mesmo assim virou identidade nacional de um lado a outro do Pacífico Sul. O porquê que não expira está na latitude: da altura da Nova Zelândia a constelação nunca se põe, e quem mora no norte da Europa nunca a viu no céu.

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O referendo: quando a Nova Zelândia votou pra trocar de bandeira

Na metade da década de 2010, a Nova Zelândia levou o próprio pano a voto, em duas rodadas. A primeira escolheu, entre propostas enviadas pelo público, um desenho alternativo com a folha de samambaia prateada, o símbolo que as seleções esportivas do país usam no peito. A segunda pôs o desenho alternativo contra a bandeira em uso.

A bandeira em uso ganhou, com pouco mais de 56% dos votos válidos, pelo resultado publicado pela comissão eleitoral neozelandesa. A discussão nunca foi de estética. De um lado, o argumento de que o cantão britânico já não descreve a composição do país. Do outro, a memória: o pano atual acompanha delegação e cerimônia desde o começo do século 20, quando a bandeira foi fixada em lei.

A Austrália nunca levou a própria bandeira a referendo nacional. O desenho australiano saiu de um concurso público aberto no ano em que as colônias viraram federação, e a lei australiana das bandeiras confirmou a escolha décadas depois.

A constelação também é instrumento de navegação

O Cruzeiro do Sul não virou símbolo nacional por bonito. Ele é a ferramenta de orientação do hemisfério sul, e a razão está numa ausência.

No hemisfério norte existe uma estrela quase exatamente sobre o polo celeste, o que resolve a orientação: quem a encontra encontra o norte, com erro pequeno. No hemisfério sul não há estrela brilhante equivalente sobre o polo, e a posição precisa ser deduzida.

O método clássico usa o eixo maior da cruz. Traçando uma linha imaginária pelas duas estrelas que formam o braço mais longo, e prolongando essa linha cerca de quatro vezes e meia o comprimento do próprio braço, chega-se ao ponto aproximado do polo celeste sul. Baixando dali uma vertical até o horizonte, encontra-se o sul.

O método funciona a olho nu, sem instrumento nenhum, e foi usado por navegadores polinésios séculos antes de chegar às cartas europeias. As grandes travessias do Pacífico foram feitas com esse tipo de referência, somada à leitura de ondulação, vento e voo de aves.

Existe uma armadilha conhecida, e ela tem nome: o Falso Cruzeiro, um conjunto de estrelas próximo que forma figura parecida, maior e menos brilhante. Quem confunde os dois erra a direção do sul por uma margem considerável, e a verificação usual é procurar as duas estrelas brilhantes que apontam para a cruz verdadeira, ausentes ao lado da falsa.

As outras bandeiras que a Nova Zelândia reconhece

O pano azul com quatro estrelas é a bandeira nacional, e não é a única com estatuto reconhecido no país.

A bandeira das Tribos Unidas, adotada na década de 1830, foi o primeiro pano a representar o território em registro internacional, escolhido por chefes maori num período em que navios construídos localmente precisavam de bandeira para ser reconhecidos em porto estrangeiro. Ela continua sendo hasteada em ocasiões oficiais e em locais de significado histórico.

A bandeira maori conhecida como Tino Rangatiratanga, criada no fim do século 20, foi reconhecida pelo governo neozelandês como bandeira nacional maori depois de consulta às comunidades, e passou a ser hasteada ao lado da bandeira nacional em datas específicas, incluindo prédios públicos e pontes de referência.

Existe ainda a folha de samambaia prateada, que não é bandeira oficial e funciona como símbolo esportivo e comercial há mais de um século. Foi ela que chegou à segunda rodada do referendo descrito acima, em desenho preto, branco e azul.

O conjunto explica por que o debate sobre a bandeira volta com regularidade no país. Não se trata de escolher entre um pano e nenhum: trata-se de decidir qual dos símbolos que já convivem representa o país no mastro principal.

Linha do tempo das duas bandeiras

  1. Década de 1830Chefes maori adotam a bandeira das Tribos Unidas, primeiro pano a representar o território em registro internacional.
  2. 1901As colônias australianas formam a federação, e um concurso público aberto escolhe o desenho da bandeira nacional, com a Estrela da Comunidade abaixo do cantão.
  3. Começo do século 20A Nova Zelândia fixa em lei o próprio pavilhão azul com as quatro estrelas vermelhas de borda branca, desenho que acompanha delegação e cerimônia desde então.
  4. Meados do século 20A Austrália confirma por lei a bandeira escolhida no concurso, décadas depois da federação.
  5. Fim do século 20A bandeira maori Tino Rangatiratanga é criada e passa a circular, sendo reconhecida oficialmente pelo governo neozelandês nos anos seguintes.
  6. Metade da década de 2010A Nova Zelândia leva a bandeira a referendo em duas rodadas, e o pano em uso vence a proposta alternativa com pouco mais de 56% dos votos válidos.

Duas costas, e nenhuma fronteira entre elas

Vizinho, no mapa, costuma significar linha compartilhada. Os dois países não dividem nenhuma.

Entre a costa leste da Austrália e a costa oeste da Nova Zelândia estão perto de 2.000 quilômetros de mar aberto. O trecho tem nome próprio nas cartas náuticas dos dois lados: Mar da Tasmânia.

Os dois países tratam a travessia pelo mesmo apelido, the Ditch, a vala. Atravessar a vala é como se diz por lá, numa piada que só funciona por causa da distância que ela finge não existir.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre a bandeira da Nova Zelândia e a da Austrália?

O número e a cor das estrelas. A Nova Zelândia tem quatro estrelas vermelhas com borda branca, todas de cinco pontas. A Austrália tem seis brancas sem borda, cinco formando o Cruzeiro do Sul e uma grande de sete pontas sozinha abaixo do cantão.

Por que as duas bandeiras são parecidas?

Porque saíram da mesma peça náutica colonial, o pavilhão azul usado por embarcações ligadas às colônias britânicas, e apontam para o mesmo céu. O cantão com a bandeira do Reino Unido é o único elemento realmente idêntico nas duas.

O que é a Estrela da Comunidade?

É a sexta estrela da bandeira australiana, grande e sozinha abaixo do cantão, com sete pontas: seis pelas colônias que formaram a federação e uma pelos territórios, conforme a página oficial do governo australiano sobre a bandeira nacional.

A Nova Zelândia trocou de bandeira?

Não. Na metade da década de 2010 o país levou o tema a referendo em duas rodadas, e a bandeira em uso venceu a proposta com a folha de samambaia prateada por pouco mais de 56% dos votos válidos, pelo resultado publicado pela comissão eleitoral neozelandesa.

Como usar o Cruzeiro do Sul para achar o sul?

Traçando uma linha pelo braço mais longo da cruz e prolongando-a cerca de quatro vezes e meia o comprimento desse braço, chega-se ao ponto aproximado do polo celeste sul. Baixando dali uma vertical até o horizonte, encontra-se o sul. A armadilha conhecida é o Falso Cruzeiro, maior e menos brilhante.

Por que as estrelas neozelandesas têm borda branca?

Por razão técnica, e não decorativa. Vermelho encostado em azul-escuro perde o contorno a distância, e o filete claro entre as duas cores devolve a forma da estrela. É o mesmo princípio que a heráldica aplica há séculos ao separar cores fortes por um metal claro.

Quais bandeiras têm o Cruzeiro do Sul?

Além de Nova Zelândia e Austrália, a constelação aparece nas bandeiras de Papua-Nova Guiné e de Samoa, todos países do hemisfério sul. Da latitude neozelandesa a constelação nunca se põe, e quem mora no norte da Europa nunca a viu no céu.

Qual a distância entre a Nova Zelândia e a Austrália?

Perto de 2.000 quilômetros de mar aberto entre a costa leste australiana e a costa oeste neozelandesa, num trecho que as cartas náuticas dos dois lados chamam de Mar da Tasmânia. Os dois países não dividem fronteira alguma, e tratam a travessia pelo mesmo apelido, a vala.

A Nova Zelândia tem outras bandeiras oficiais?

Tem. A bandeira das Tribos Unidas, adotada na década de 1830, foi o primeiro pano a representar o território em registro internacional. A bandeira maori conhecida como Tino Rangatiratanga foi reconhecida pelo governo como bandeira nacional maori e é hasteada ao lado da nacional em datas específicas.

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