O mapa · Explicador

Capitais que mudaram de lugar, e a razão geográfica de cada uma

Mundo · Leitura de 5 minutos

Tachinha verde escura recém retirada do papel, apoiada de lado ao lado do furo antigo na folha clara sobre mesa de madeira clara, luz de dia difusa entrando pela esquerda

Capital não é a maior cidade por definição. É o endereço do governo, e endereço se muda.

Quando um país troca a capital de lugar, ele quase sempre está resolvendo um problema desenhado no mapa: gente demais espremida no litoral, poder demais concentrado numa região, sede exposta demais a quem chega pelo mar. A decisão é política, e a justificativa é geográfica.

Cinco mudanças, cinco razões. Nenhuma delas pede que você guarde nome de cidade na memória.

Interiorizar: Brasília, o quadrilátero marcado antes da cidade

A Constituição brasileira de 1891 já reservava uma área no Planalto Central pra futura capital, antes de existir projeto, avenida ou concurso. Poucos anos depois, uma comissão exploradora chefiada pelo astrônomo Luiz Cruls percorreu o cerrado a cavalo e demarcou o quadrilátero em relatório publicado.

O problema que a mudança atacava aparecia em qualquer mapa de população: quase todo mundo morava numa faixa estreita perto do Atlântico, e o interior seguia vazio de estrada e de gente.

A sede do governo mudou em 1960, mais de mil quilômetros terra adentro. A cidade nova não resolveu sozinha a ocupação do interior, mas puxou eixo de rodovia e aeroporto que hoje explicam o mapa de transporte do país.

Equilibrar regiões: Abuja, o ponto no meio do mapa

A Nigéria governava de Lagos, cidade portuária, densa, encravada em lagoa e sem espaço pra crescer. Um decreto federal da década de 1970 criou um território de capital no centro do país e mandou construir a sede lá.

A razão declarada não foi só espaço. O ponto escolhido ficava perto do centro geográfico, longe do litoral do sul e do interior seco do norte, num terreno que não pertencia aos grandes blocos regionais que dividem o país. Capital em terra neutra, por escolha explícita.

A transferência do governo se completou no começo da década de 1990. Lagos continuou sendo a maior cidade e o centro econômico, e o governo passou a despachar do meio do mapa.

Defender: Ancara, a capital que subiu pro planalto

Istambul fica sobre um estreito, com água dos dois lados e uma frota estrangeira a poucas horas de navegação. No fim da Primeira Guerra, com a região ocupada, a assembleia nacional turca passou a se reunir em Ancara, no meio do planalto da Anatólia.

Ancara está a centenas de quilômetros de qualquer costa, num terreno alto, perto de novecentos metros de altitude, e no cruzamento das estradas que ligam o país de leste a oeste. Difícil de alcançar por mar, fácil de abastecer por terra.

A república fixou a cidade como capital em 1923, por decisão da própria assembleia. A maior cidade do país continuou sendo a do estreito, e segue sendo até hoje.

Centralizar: Astana, a mudança pro meio da estepe

O Cazaquistão governava de Almaty, encaixada entre montanhas no canto sudeste do território, dentro de uma zona de terremoto conhecida e sem área plana pra expandir. Um país enorme despachava de uma quina.

O decreto presidencial de 1997 transferiu a capital pra estepe do norte, perto do centro geográfico. As razões oficiais citadas foram o espaço pra crescer, o risco sísmico e a distância entre a antiga sede e boa parte do território.

O inverno da estepe é um dos mais rigorosos entre as capitais do mundo, e a cidade foi construída assumindo o frio no projeto. Ela trocou de nome mais de uma vez desde a mudança, sem sair do lugar.

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A capital que não é a maior cidade: Ottawa, escolhida por ficar no meio da briga

No fim da década de 1850, quatro cidades canadenses disputavam a sede do governo e nenhuma cedia. A decisão foi entregue à rainha Vitória, e a escolha registrada nos documentos do Parlamento da época caiu sobre uma cidade madeireira pequena, no rio Ottawa.

A geografia da escolha é literal. O ponto ficava exatamente na divisa entre as duas metades da colônia, uma de língua inglesa e outra de língua francesa, e mais afastado da fronteira do sul, que era a preocupação militar do momento.

Nenhuma das grandes cidades do país aceitaria ver a rival premiada. Uma cidade pequena e bem colocada no mapa era a única solução que todo mundo engolia, e a capital canadense nunca chegou perto de ser a maior do próprio país.

A regra vale longe dali também. Quando a capital é escolhida pra apaziguar região, ela costuma ser pequena de propósito: cidade grande já tem peso próprio, e peso próprio é exatamente o que os perdedores da disputa não aceitam premiar.

O país que mantém três capitais ao mesmo tempo

A África do Sul distribuiu o governo entre três cidades: o executivo despacha de Pretória, o parlamento se reúne na Cidade do Cabo e a corte de apelação mais alta fica em Bloemfontein.

O arranjo veio do acordo que uniu as antigas colônias no começo do século 20, registrado no ato que criou a união. Nenhuma delas abria mão da sede, e o país resolveu a disputa repartindo os poderes pelo mapa em vez de escolher uma vencedora.

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