O mapa · Bandeira

Argentina e Uruguai: o mesmo sol em duas bandeiras vizinhas

Mundo · Leitura de 5 minutos

Dois compassos de latão fosco apoiados um contra o outro sobre mesa de madeira clara, as pontas se tocando sobre papel quente quase branco, com fita verde escura embaixo e luz de dia difusa pela esquerda

Duas bandeiras com faixas horizontais em azul-celeste e branco, e um sol de rosto humano no meio do pano. A da Argentina e a do Uruguai parecem versões da mesma peça, e a semelhança tem endereço.

Os dois países saíram do mesmo território colonial, as Províncias Unidas do Rio da Prata, e o nome do território é o nome de um rio. O rio virou fronteira, e a herança do desenho ficou repartida entre as duas margens.

Quatro elementos se repetem: o sol, a cor, a direção das faixas e a ideia de contar com elas. O quarto elemento é justamente o que separa os dois.

O sol de maio: o mesmo rosto, com contagem diferente de raios

O sol das duas bandeiras tem rosto humano e se chama Sol de Maio, referência ao movimento iniciado em maio no Rio da Prata, no começo do século 19.

Na bandeira argentina, o sol fica no centro da faixa branca e tem 32 raios, metade retos e metade ondulados, alternando um a um, segundo a descrição oficial publicada pelo governo argentino.

Na bandeira uruguaia, o sol ocupa o cantão branco, no canto superior esquerdo, e tem 16 raios, na mesma alternância entre reto e ondulado. Metade da conta argentina, com a mesma lógica de desenho.

O rosto é a assinatura compartilhada. Nenhum outro país da América do Sul põe um sol com face na bandeira nacional.

O azul-celeste: a cor da cocarda que virou bandeira

A cor não é o azul-marinho das bandeiras europeias. É um celeste claro, e as duas bandeiras usam faixas do mesmo tom.

A origem registrada nos arquivos dos dois países é a cocarda azul-celeste e branca adotada pelas forças do Rio da Prata no começo do século 19, antes de existir país de um lado ou do outro. A cocarda virou bandeira, e a bandeira se dividiu quando o território se dividiu.

Sobre de onde veio o celeste, as fontes divergem. Uma leitura aponta as cores da casa real espanhola presentes na região. Outra aponta o céu do estuário. Uma terceira aponta a faixa de uma ordem honorífica da época. O registro documenta a cocarda, e não documenta a decisão da cor.

As faixas: horizontais nas duas, com o branco no meio

Faixa horizontal é a herança mais visível de longe. Nas duas bandeiras a sequência começa e termina em celeste, com branco entre elas, e nenhuma das duas usa faixa vertical.

A direção pesa mais do que parece. Bandeira de faixa vertical, no continente, costuma descender do modelo francês. A faixa horizontal do Rio da Prata veio da cocarda das tropas locais, por um caminho próprio.

O branco do meio é o campo onde o sol se instalou na Argentina. No Uruguai, o branco virou fundo de listra, e o sol subiu pro cantão pra não brigar com a faixa fina.

O número de faixas: três contra nove

A Argentina usa três faixas: celeste, branca, celeste. O desenho vem das primeiras leis do país, no começo do século 19, e nunca mudou de contagem.

O Uruguai usa nove faixas, cinco brancas e quatro celestes, alternadas. Cada faixa marca um dos departamentos originais do país, a divisão administrativa que existia quando a bandeira foi definida em lei.

A primeira lei uruguaia da bandeira, no fim dos anos 1820, previa 17 faixas. Uma lei do começo dos anos 1830 cortou pra nove, porque listra fina demais some de longe e o pano ficava ilegível no mastro.

Contar faixa é o teste de campo: três, Argentina; nove, Uruguai. O sol confirma quando dá pra ver o canto de cima.

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O rio que virou fronteira, e o tratado que repartiu a água

O Rio da Prata não é rio comum. É o estuário onde o Paraná e o Uruguai se encontram e desaguam no Atlântico, e a bacia drenada por eles cobre parte de cinco países da América do Sul.

A fronteira entre Argentina e Uruguai é água quase inteira: o rio Uruguai no trecho de cima, o estuário no trecho de baixo. Terra firme dividida entre os dois, no continente, não existe.

Repartir água exige acordo escrito. Os dois países assinaram um tratado de limites do rio Uruguai nos anos 1960 e um tratado do Rio da Prata e da frente marítima nos anos 1970, e criaram comissões administradoras conjuntas pra tocar navegação, pesca e obras nas margens.

Por que a linha passa ali tem resposta curta: a linha é o próprio rio que batizou o território colonial, deu nome a um dos dois países e sobrou como limite entre eles.

A foz que engana quem olha da praia

Na saída pro Atlântico, entre a ponta leste do Uruguai e a ponta sul da província argentina de Buenos Aires, o Rio da Prata mede perto de 220 quilômetros de largura. É a foz mais larga registrada entre os rios do planeta.

Da praia de qualquer das duas margens, a outra margem não aparece. A água vem barrenta pelo sedimento que o Paraná carrega desde o interior do continente, e o horizonte fecha reto, igual a mar aberto.

Sedimento e pouca profundidade obrigam a dragagem permanente de canais pros navios passarem. É um mar que precisa de escavação pra continuar funcionando como rio.

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