O mapa · Bandeira

Argentina e Uruguai: o mesmo sol em duas bandeiras vizinhas

Por Redação Geografia do Dia · Mundo · Leitura de 11 minutos

Dois compassos de latão fosco apoiados um contra o outro sobre mesa de madeira clara, as pontas se tocando sobre papel quente quase branco, com fita verde escura embaixo e luz de dia difusa pela esquerda

Duas bandeiras com faixas horizontais em azul-celeste e branco, e um sol de rosto humano no meio do pano. A da Argentina e a do Uruguai parecem versões da mesma peça, e a semelhança tem endereço.

Os dois países saíram do mesmo território colonial, as Províncias Unidas do Rio da Prata, e o nome do território é o nome de um rio. O rio virou fronteira, e a herança do desenho ficou repartida entre as duas margens.

Quatro elementos se repetem: o sol, a cor, a direção das faixas e a ideia de contar com elas. O quarto elemento é justamente o que separa os dois.

O sol de maio: o mesmo rosto, com contagem diferente de raios

O sol das duas bandeiras tem rosto humano e se chama Sol de Maio, referência ao movimento iniciado em maio no Rio da Prata, no começo do século 19.

Na bandeira argentina, o sol fica no centro da faixa branca e tem 32 raios, metade retos e metade ondulados, alternando um a um, segundo a descrição oficial publicada pelo governo argentino.

Na bandeira uruguaia, o sol ocupa o cantão branco, no canto superior esquerdo, e tem 16 raios, na mesma alternância entre reto e ondulado. Metade da conta argentina, com a mesma lógica de desenho.

O rosto é a assinatura compartilhada. Nenhum outro país da América do Sul põe um sol com face na bandeira nacional.

O azul-celeste: a cor da cocarda que virou bandeira

A cor não é o azul-marinho das bandeiras europeias. É um celeste claro, e as duas bandeiras usam faixas do mesmo tom.

A origem registrada nos arquivos dos dois países é a cocarda azul-celeste e branca adotada pelas forças do Rio da Prata no começo do século 19, antes de existir país de um lado ou do outro. A cocarda virou bandeira, e a bandeira se dividiu quando o território se dividiu.

Sobre de onde veio o celeste, as fontes divergem. Uma leitura aponta as cores da casa real espanhola presentes na região. Outra aponta o céu do estuário. Uma terceira aponta a faixa de uma ordem honorífica da época. O registro documenta a cocarda, e não documenta a decisão da cor.

As faixas: horizontais nas duas, com o branco no meio

Faixa horizontal é a herança mais visível de longe. Nas duas bandeiras a sequência começa e termina em celeste, com branco entre elas, e nenhuma das duas usa faixa vertical.

A direção pesa mais do que parece. Bandeira de faixa vertical, no continente, costuma descender do modelo francês. A faixa horizontal do Rio da Prata veio da cocarda das tropas locais, por um caminho próprio.

O branco do meio é o campo onde o sol se instalou na Argentina. No Uruguai, o branco virou fundo de listra, e o sol subiu pro cantão pra não brigar com a faixa fina.

O número de faixas: três contra nove

A Argentina usa três faixas: celeste, branca, celeste. O desenho vem das primeiras leis do país, no começo do século 19, e nunca mudou de contagem.

O Uruguai usa nove faixas, cinco brancas e quatro celestes, alternadas. Cada faixa marca um dos departamentos originais do país, a divisão administrativa que existia quando a bandeira foi definida em lei.

A primeira lei uruguaia da bandeira, no fim dos anos 1820, previa 17 faixas. Uma lei do começo dos anos 1830 cortou pra nove, porque listra fina demais some de longe e o pano ficava ilegível no mastro.

Contar faixa é o teste de campo: três, Argentina; nove, Uruguai. O sol confirma quando dá pra ver o canto de cima.

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O rio que virou fronteira, e o tratado que repartiu a água

O Rio da Prata não é rio comum. É o estuário onde o Paraná e o Uruguai se encontram e desaguam no Atlântico, e a bacia drenada por eles cobre parte de cinco países da América do Sul.

A fronteira entre Argentina e Uruguai é água quase inteira: o rio Uruguai no trecho de cima, o estuário no trecho de baixo. Terra firme dividida entre os dois, no continente, não existe.

Repartir água exige acordo escrito. Os dois países assinaram um tratado de limites do rio Uruguai nos anos 1960 e um tratado do Rio da Prata e da frente marítima nos anos 1970, e criaram comissões administradoras conjuntas pra tocar navegação, pesca e obras nas margens.

Por que a linha passa ali tem resposta curta: a linha é o próprio rio que batizou o território colonial, deu nome a um dos dois países e sobrou como limite entre eles.

O Uruguai tem três bandeiras oficiais

O país mantém em lei três panos nacionais, e os dois que ninguém fora do país conhece contam o resto da história.

O primeiro é o pavilhão nacional, o de nove faixas com o sol no cantão, usado em prédio público, em cerimônia e como representação do Estado.

O segundo é a bandeira de Artigas, atribuída ao líder que comandou a resistência na região no começo do século 19. Ela usa faixas horizontais em branco e azul atravessadas por uma faixa diagonal vermelha, e é hasteada ao lado do pavilhão nacional em datas oficiais.

O terceiro é a bandeira dos Trinta e Três Orientais, ligada ao grupo que desembarcou na margem oriental para retomar o território, com três faixas horizontais em azul, branco e vermelho e uma inscrição em letras. Ela é a exceção que confirma a regra da vexilologia sobre texto em bandeira: funciona porque é um pano histórico, com uso cerimonial, e não um desenho pensado para ser lido a distância.

O conjunto tem consequência prática. Em fotografia de cerimônia oficial uruguaia, três panos diferentes aparecem lado a lado, e quem só conhece o de nove faixas conclui que dois deles são de outros países. A distinção também explica por que o vermelho, ausente do pavilhão, é cor presente na iconografia nacional.

Como distinguir as duas de longe

Bandeiras parecidas produzem erro em transmissão esportiva e em cerimônia internacional, e três testes resolvem em segundos.

O primeiro é contar faixas. Três, sendo celeste, branca e celeste, indica Argentina. Nove faixas alternadas indicam Uruguai. É o teste mais confiável, porque funciona mesmo com o pano parcialmente enrolado.

O segundo é localizar o sol. No centro do pano é Argentina; no canto superior junto ao mastro é Uruguai. A posição também muda o tamanho relativo: o sol argentino é maior em relação ao pano, porque tem a faixa central inteira para ocupar.

O terceiro, para quem consegue ver de perto, é contar raios. Trinta e dois na Argentina, dezesseis no Uruguai, nos dois casos alternando raio reto e raio ondulado.

Vale acrescentar um quarto teste para o caso de bandeira sem sol visível, que acontece com pano velho e desbotado: a proporção. Bandeiras nacionais têm razão de altura por largura definida em norma, e as duas usam medidas diferentes, o que dá formatos distintos mesmo à distância.

Linha do tempo das duas bandeiras

  1. 1810O movimento iniciado em maio no Rio da Prata dá origem ao nome que o sol das duas bandeiras carrega até hoje.
  2. 1812As forças da região adotam formalmente as cores celeste e branca da cocarda como bandeira de campanha, no episódio que a tradição argentina associa a Manuel Belgrano.
  3. 1816As Províncias Unidas declaram independência, e a bandeira das cores da cocarda passa a representar o novo país.
  4. 1818Uma lei acrescenta o sol de rosto humano à faixa branca central da bandeira argentina, fixando o desenho que chegou até hoje.
  5. 1828Um acordo entre os países vizinhos cria um Estado independente na margem oriental do rio, e o novo país precisa de bandeira própria.
  6. Décadas de 1820 e 1830A primeira lei uruguaia prevê dezessete faixas, e uma lei seguinte corta para nove, porque listra fina demais desaparece de longe e deixava o pano ilegível no mastro.

A foz que engana quem olha da praia

Na saída pro Atlântico, entre a ponta leste do Uruguai e a ponta sul da província argentina de Buenos Aires, o Rio da Prata mede perto de 220 quilômetros de largura. É a foz mais larga registrada entre os rios do planeta.

Da praia de qualquer das duas margens, a outra margem não aparece. A água vem barrenta pelo sedimento que o Paraná carrega desde o interior do continente, e o horizonte fecha reto, igual a mar aberto. Quem chega pela primeira vez a qualquer das duas capitais costuma levar algum tempo para aceitar que aquilo ainda é rio.

Sedimento e pouca profundidade obrigam a dragagem permanente de canais pros navios passarem. É um mar que precisa de escavação pra continuar funcionando como rio.

Perguntas frequentes

Por que as bandeiras da Argentina e do Uruguai são parecidas?

Porque os dois países saíram do mesmo território colonial, as Províncias Unidas do Rio da Prata, e herdaram as cores da cocarda azul-celeste e branca adotada pelas forças da região no começo do século 19, antes de existir país de qualquer um dos lados.

Como diferenciar a bandeira da Argentina da do Uruguai?

Contando faixas: três, sendo celeste, branca e celeste, é Argentina; nove faixas alternadas é Uruguai. Outro teste é a posição do sol, no centro do pano na argentina e no canto superior junto ao mastro na uruguaia.

O que é o Sol de Maio?

É o sol de rosto humano presente nas duas bandeiras, referência ao movimento iniciado em maio no Rio da Prata. Ele tem 32 raios na bandeira argentina e 16 na uruguaia, nos dois casos alternando raio reto e raio ondulado. Nenhum outro país da América do Sul põe um sol com face na bandeira nacional.

Por que a bandeira do Uruguai tem nove faixas?

Cada faixa marca um dos departamentos originais do país, a divisão administrativa que existia quando o desenho foi definido em lei. A primeira lei, do fim dos anos 1820, previa dezessete faixas, e uma lei do começo dos anos 1830 reduziu para nove, porque listra fina demais some de longe.

De onde vem o azul-celeste dessas bandeiras?

Da cocarda usada pelas forças do Rio da Prata, documentada nos arquivos dos dois países. A origem da escolha da cor não está documentada, e as leituras correntes apontam para as cores da casa real espanhola, para o céu do estuário ou para a faixa de uma ordem honorífica da época.

Quantas bandeiras oficiais o Uruguai tem?

Três. O pavilhão nacional de nove faixas, a bandeira de Artigas, com faixas em branco e azul atravessadas por uma diagonal vermelha, e a bandeira dos Trinta e Três Orientais, com três faixas e uma inscrição em letras. As três aparecem juntas em cerimônia oficial.

Por que o Rio da Prata é tão largo?

Porque ele não é um rio comum, e sim o estuário onde o Paraná e o Uruguai se encontram antes de desaguar no Atlântico. Na saída para o mar ele mede perto de 220 quilômetros de largura, a foz mais larga registrada entre os rios do planeta, e de uma margem não se enxerga a outra.

Qual a fronteira entre Argentina e Uruguai?

Água quase inteira: o rio Uruguai no trecho de cima e o estuário do Rio da Prata no trecho de baixo. Não existe fronteira de terra firme entre os dois países no continente, e a repartição é regida por tratados assinados nos anos 1960 e 1970, com comissões administradoras conjuntas.

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