O mapa · Bandeira
Bandeira do Reino Unido: três cruzes e um país que ficou de fora
Mundo · Leitura de 5 minutos

Neste artigo
A bandeira do Reino Unido é uma pilha, não um desenho. Três bandeiras de padroeiro impressas uma por cima da outra, na ordem em que as coroas se juntaram.
Cada camada entrou no pano quando a fronteira mudou. Duas delas cabem numa ilha só. A terceira precisou atravessar um braço de mar. E o País de Gales, que faz fronteira de terra com a Inglaterra há mais de mil anos, ficou de fora por uma questão de calendário.
Ler a bandeira de baixo pra cima é ler o mapa político das ilhas em três tempos. Comece pelo fundo.
A cruz de São Jorge: a camada que já cobria dois países
A cruz vermelha reta sobre fundo branco é a bandeira da Inglaterra, ligada a São Jorge desde a Idade Média e usada em campanha militar e em navio inglês muito antes de qualquer união.
Quando ela entrou na pilha, já não representava só a Inglaterra. As Leis de Gales, aprovadas pelo Parlamento inglês no século 16, tinham incorporado o principado ao reino, com a mesma lei e a mesma representação parlamentar.
A geografia ajuda a explicar a antecedência. Entre Inglaterra e País de Gales não há mar nenhum, só uma linha de terra que corre perto da muralha de terra erguida no século 8 por ordem de um rei da Mércia, hoje um caminho oficial de longa distância. Fronteira seca e vizinho grande do lado leste: a absorção veio séculos antes das outras.
A cruz de Santo André: duas coroas numa ilha só
A cruz branca em diagonal sobre azul é a bandeira da Escócia, ligada a Santo André. Ela entra no pano no começo do século 17, quando o rei escocês herdou também o trono inglês e as duas coroas passaram a ficar na mesma cabeça.
A ordem real da época mandava os navios das duas nações levarem o desenho combinado no mastro, pra acabar com a briga de quem hasteava o quê no mar. Em terra, cada reino continuou com a sua bandeira por mais um século.
Só com os Atos de União de 1707, que fundiram os dois parlamentos num reino chamado Grã-Bretanha, o pano combinado virou bandeira de um país. A fronteira ali sempre foi de terra, no vale do rio Tweed e nos montes Cheviot, e é por ela ser de terra que a união demorou: dois reinos vizinhos disputaram a mesma ilha por séculos antes de assinar.
A cruz de São Patrício: a camada que atravessou o mar
A terceira camada é a cruz vermelha em diagonal sobre branco, atribuída a São Patrício, e entrou pelo Ato de União de 1801, que juntou o Reino da Irlanda à Grã-Bretanha.
Aqui a geografia muda de natureza. As duas primeiras camadas dividiam uma ilha. A terceira veio de outra, separada por um canal cujo trecho mais estreito, entre a costa do norte irlandês e a península escocesa, tem cerca de vinte quilômetros. Em dia limpo, uma margem enxerga a outra.
Quando a maior parte da Irlanda saiu do reino, na década de 1920, a bandeira não mudou. O norte da ilha continuou dentro, e a camada continuou no pano, agora representando um pedaço de ilha em vez de uma ilha inteira.
O País de Gales: o dragão que chegou tarde demais
O galês tem bandeira própria, o dragão vermelho sobre verde e branco, chamado em galês de Y Ddraig Goch. Ela só ganhou reconhecimento oficial como bandeira nacional na metade do século 20.
O motivo da ausência é cronológico. Quando as cruzes foram empilhadas, Gales não era um reino separado com bandeira de coroa pra somar: era, em lei, parte do reino inglês, e portanto já estava representado pela cruz de São Jorge. A resposta que o governo britânico repete nos registros parlamentares até hoje é exatamente essa.
O tema volta a cada rodada de debate sobre a bandeira, sem mudança no pano. O dragão ficou com o estádio, a camisa e o edifício público de Cardiff.
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A assimetria que prova a ordem das camadas
Olhe a diagonal branca larga. Ela é mais grossa acima da diagonal vermelha de um lado do pano e mais grossa abaixo do outro. A bandeira não é simétrica, e existe jeito certo de hastear.
A razão está na hierarquia da pilha. A cruz irlandesa não podia cobrir a escocesa, porque a Escócia entrou primeiro, então ela foi deslocada de posição e ficou com uma faixa branca fina de cada lado, sempre menor que a diagonal escocesa.
Hastear ao contrário é erro registrado em cerimônia oficial, e o guia de hasteamento publicado pelo governo britânico explica a orientação correta em duas linhas: a faixa branca larga fica em cima, do lado do mastro.
Union Jack: o apelido que veio da proa do navio
Chamar o pano de Union Jack é herança de bordo. Jack era o nome da bandeira pequena hasteada num mastro curto na proa, o jackstaff, usada pra identificar a nacionalidade do navio parado no porto.
A bandeira da união virou o jack da frota, e o apelido colou. Em terra firme o nome pegou por hábito, e o próprio Parlamento britânico já registrou que o uso em terra é aceito. No mar, quem quer ser exato ainda separa: no mastro da proa é o jack, no resto do navio é a bandeira.
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