O mapa · Bandeira
Bandeira do Reino Unido: três cruzes e um país que ficou de fora
Por Redação Geografia do Dia · Mundo · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- A cruz de São Jorge: a camada que já cobria dois países
- A cruz de Santo André: duas coroas numa ilha só
- A cruz de São Patrício: a camada que atravessou o mar
- O País de Gales: o dragão que chegou tarde demais
- A assimetria que prova a ordem das camadas
- As bandeiras que carregam essa no canto
- Protocolo: o pano tem regra de uso
- Linha do tempo do pano
- Union Jack: o apelido que veio da proa do navio
- Perguntas frequentes
A bandeira do Reino Unido é uma pilha, não um desenho. Três bandeiras de padroeiro impressas uma por cima da outra, na ordem em que as coroas se juntaram.
Cada camada entrou no pano quando a fronteira mudou. Duas delas cabem numa ilha só. A terceira precisou atravessar um braço de mar. E o País de Gales, que faz fronteira de terra com a Inglaterra há mais de mil anos, ficou de fora por uma questão de calendário.
Ler a bandeira de baixo pra cima é ler o mapa político das ilhas em três tempos. Comece pelo fundo.
A cruz de São Jorge: a camada que já cobria dois países
A cruz vermelha reta sobre fundo branco é a bandeira da Inglaterra, ligada a São Jorge desde a Idade Média e usada em campanha militar e em navio inglês muito antes de qualquer união.
Quando ela entrou na pilha, já não representava só a Inglaterra. As Leis de Gales, aprovadas pelo Parlamento inglês no século 16, tinham incorporado o principado ao reino, com a mesma lei e a mesma representação parlamentar.
A geografia ajuda a explicar a antecedência. Entre Inglaterra e País de Gales não há mar nenhum, só uma linha de terra que corre perto da muralha de terra erguida no século 8 por ordem de um rei da Mércia, hoje um caminho oficial de longa distância. Fronteira seca e vizinho grande do lado leste: a absorção veio séculos antes das outras.
A cruz de Santo André: duas coroas numa ilha só
A cruz branca em diagonal sobre azul é a bandeira da Escócia, ligada a Santo André. Ela entra no pano no começo do século 17, quando o rei escocês herdou também o trono inglês e as duas coroas passaram a ficar na mesma cabeça.
A ordem real da época mandava os navios das duas nações levarem o desenho combinado no mastro, pra acabar com a briga de quem hasteava o quê no mar. Em terra, cada reino continuou com a sua bandeira por mais um século.
Só com os Atos de União de 1707, que fundiram os dois parlamentos num reino chamado Grã-Bretanha, o pano combinado virou bandeira de um país. A fronteira ali sempre foi de terra, no vale do rio Tweed e nos montes Cheviot, e é por ela ser de terra que a união demorou: dois reinos vizinhos disputaram a mesma ilha por séculos antes de assinar.
A cruz de São Patrício: a camada que atravessou o mar
A terceira camada é a cruz vermelha em diagonal sobre branco, atribuída a São Patrício, e entrou pelo Ato de União de 1801, que juntou o Reino da Irlanda à Grã-Bretanha.
Aqui a geografia muda de natureza. As duas primeiras camadas dividiam uma ilha. A terceira veio de outra, separada por um canal cujo trecho mais estreito, entre a costa do norte irlandês e a península escocesa, tem cerca de vinte quilômetros. Em dia limpo, uma margem enxerga a outra.
Quando a maior parte da Irlanda saiu do reino, na década de 1920, a bandeira não mudou. O norte da ilha continuou dentro, e a camada continuou no pano, agora representando um pedaço de ilha em vez de uma ilha inteira.
O País de Gales: o dragão que chegou tarde demais
O galês tem bandeira própria, o dragão vermelho sobre verde e branco, chamado em galês de Y Ddraig Goch. Ela só ganhou reconhecimento oficial como bandeira nacional na metade do século 20.
O motivo da ausência é cronológico. Quando as cruzes foram empilhadas, Gales não era um reino separado com bandeira de coroa pra somar: era, em lei, parte do reino inglês, e portanto já estava representado pela cruz de São Jorge. A resposta que o governo britânico repete nos registros parlamentares até hoje é exatamente essa.
O tema volta a cada rodada de debate sobre a bandeira, sem mudança no pano. O dragão ficou com o estádio, a camisa e o edifício público de Cardiff.
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A assimetria que prova a ordem das camadas
Olhe a diagonal branca larga. Ela é mais grossa acima da diagonal vermelha de um lado do pano e mais grossa abaixo do outro. A bandeira não é simétrica, e existe jeito certo de hastear.
A razão está na hierarquia da pilha. A cruz irlandesa não podia cobrir a escocesa, porque a Escócia entrou primeiro, então ela foi deslocada de posição e ficou com uma faixa branca fina de cada lado, sempre menor que a diagonal escocesa.
Hastear ao contrário é erro registrado em cerimônia oficial, e o guia de hasteamento publicado pelo governo britânico explica a orientação correta em duas linhas: a faixa branca larga fica em cima, do lado do mastro.
As bandeiras que carregam essa no canto
A pilha de três cruzes não ficou nas ilhas. Ela viajou para o cantão de dezenas de bandeiras, e o retângulo do canto superior junto ao mastro virou o registro cartográfico mais visível do alcance de um império.
Austrália e Nova Zelândia mantêm o cantão até hoje sobre campo azul, com estrelas do Cruzeiro do Sul no restante do pano. A semelhança entre as duas é tão grande que gera confusão em cerimônia internacional, e a diferença está no número, na cor e no formato das estrelas.
Fiji conservou o cantão sobre azul-claro depois da independência, com escudo próprio ao lado, e Tuvalu fez o mesmo com estrelas dispostas como as ilhas ficam no mar. Nos dois casos, a permanência foi decisão tomada depois da independência, e não herança automática.
Fora do Pacífico, o caso mais curioso está nos Estados Unidos: a bandeira do Havaí traz a mesma pilha no cantão, herança do período em que o reino insular mantinha relações estreitas com a marinha britânica, e é a única bandeira estadual americana com esse desenho.
Existe ainda uma família inteira de bandeiras marítimas construída sobre o mesmo princípio, com o cantão indicando a autoridade e o campo indicando a função, distinguindo navio de guerra, navio civil e embarcação de serviço público. Quem aprende a ler o cantão passa a reconhecer parentesco entre panos que parecem não ter nada em comum.
Protocolo: o pano tem regra de uso
Bandeira nacional costuma vir com manual, e o do Reino Unido é publicado pelo governo com instruções que valem para prédio público e servem de referência para uso privado.
A primeira regra é a orientação, já tratada aqui: a faixa branca larga da diagonal fica em cima, do lado do mastro. Hastear ao contrário é erro registrado em cerimônia oficial mais de uma vez, e o sinal é discreto o bastante para passar despercebido por quase todo mundo na plateia.
A segunda é a posição no mastro. Bandeira hasteada sobe até o topo, e meia-haste significa luto, com a orientação de içar primeiro até o topo e depois baixar até a posição de luto, invertendo a ordem na retirada.
A terceira é a hierarquia entre bandeiras hasteadas juntas. Quando várias sobem lado a lado, a posição de honra é a da esquerda de quem olha, e bandeiras de países diferentes hasteadas em conjunto seguem ordem alfabética, todas na mesma altura e em mastros de mesmo tamanho.
A quarta é o estado do pano. Bandeira desbotada, rasgada ou suja é considerada falta de respeito, e a orientação padrão é substituir em vez de remendar.
Nenhuma dessas regras tem força de lei na maior parte dos casos, e todas funcionam como etiqueta reconhecida. Vale conhecê-las pelo mesmo motivo pelo qual se aprende a ler um mapa: elas informam sem dizer nada em voz alta.
Linha do tempo do pano
- Século 16As leis aprovadas pelo Parlamento inglês incorporam o País de Gales ao reino, com a mesma lei e a mesma representação, o que explica a ausência posterior do dragão na pilha.
- Começo do século 17O rei escocês herda também o trono inglês, e uma ordem real manda os navios das duas nações levarem no mastro o desenho combinado das duas cruzes.
- 1707Os Atos de União fundem os parlamentos inglês e escocês num reino chamado Grã-Bretanha, e o pano combinado passa a ser bandeira de um país.
- 1801O Ato de União junta o Reino da Irlanda à Grã-Bretanha, e a terceira cruz entra na pilha, deslocada para não cobrir a escocesa.
- Década de 1920A maior parte da Irlanda deixa o reino, e a bandeira não muda: a camada passa a representar um pedaço de ilha em vez de uma ilha inteira.
- Metade do século 20O dragão vermelho ganha reconhecimento oficial como bandeira nacional do País de Gales, sem que a pilha das três cruzes seja alterada.
Union Jack: o apelido que veio da proa do navio
Chamar o pano de Union Jack é herança de bordo. Jack era o nome da bandeira pequena hasteada num mastro curto na proa, o jackstaff, usada pra identificar a nacionalidade do navio parado no porto.
A bandeira da união virou o jack da frota, e o apelido colou. Em terra firme o nome pegou por hábito, e o próprio Parlamento britânico já registrou que o uso em terra é aceito. No mar, quem quer ser exato ainda separa: no mastro da proa é o jack, no resto do navio é a bandeira.
Perguntas frequentes
O que significam as cruzes da bandeira do Reino Unido?
São três bandeiras de padroeiro empilhadas na ordem em que as coroas se juntaram: a cruz vermelha reta de São Jorge, da Inglaterra, ao fundo; a cruz branca em diagonal de Santo André, da Escócia, por cima; e a cruz vermelha em diagonal atribuída a São Patrício, da Irlanda, na última camada.
Por que o País de Gales não aparece na bandeira?
Por uma questão de calendário. Quando as cruzes foram empilhadas, Gales já não era um reino separado com bandeira de coroa para somar: as leis do século 16 o tinham incorporado ao reino inglês, então ele já estava representado pela cruz de São Jorge. É a resposta que o governo repete nos registros parlamentares.
A bandeira do Reino Unido tem lado certo para hastear?
Tem, e ela não é simétrica. A faixa branca larga da diagonal deve ficar em cima do lado do mastro. A assimetria existe porque a cruz irlandesa não podia cobrir a escocesa, que entrou primeiro, e acabou deslocada, ficando com uma faixa branca fina de cada lado.
Por que se chama Union Jack?
Porque jack era o nome da bandeira pequena hasteada no mastro curto da proa, usada para identificar a nacionalidade de um navio parado no porto. A bandeira da união virou o jack da frota e o apelido colou. Em terra o uso é aceito por hábito; no mar, quem quer ser exato ainda separa os dois nomes.
Quais países têm a bandeira britânica no canto?
Austrália, Nova Zelândia, Fiji e Tuvalu mantêm o cantão depois da independência, cada um com um campo e um conjunto de símbolos próprios. Fora do Pacífico, a bandeira do estado americano do Havaí traz o mesmo desenho no canto, caso único entre as bandeiras estaduais dos Estados Unidos.
A bandeira mudou quando a Irlanda ficou independente?
Não. Quando a maior parte da Irlanda deixou o reino, na década de 1920, o norte da ilha continuou dentro e a camada permaneceu no pano. O que mudou foi o que ela representa: um pedaço de ilha, em vez de uma ilha inteira.
Qual é a bandeira do País de Gales?
O dragão vermelho sobre campo verde e branco, chamado em galês de Y Ddraig Goch, que ganhou reconhecimento oficial como bandeira nacional apenas na metade do século 20. O tema da inclusão dele na bandeira do Reino Unido volta a cada rodada de debate, sem mudança no pano.
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